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Mostrando postagens de 2012
Há decisões que é melhor adiar para dias em que estamos mais brandos.

Paropasse

Intoxicado por palavras

As palavras me tomam todo o dia. Me cercam, me invadem Intoxico-me com elas. Não sei que saída foi essa. Uma maneira de não escutar Aquelas que emanam de mim.
Se não terei o que quero, obterei querendo menos?

Deserção

Estava desavisado Enquanto saias sem alarde Deixando em mim Ainda esse sobressalto Quando alguém bate à porta.
Quero voltar. Poderia dizer que é mais que isso, que é preciso; que preciso voltar. Porque persistem muitos mistérios e tenho que voltar sem intenções, simplesmente caminhar pelas ruas, descobrir-me sozinho, porque aí está meu conforto, assim é o meu caminho.
Faça-me acreditar que o amor existe e que está ao alcance de quem quer que seja. Eu queria poder falar de outras coisas: da vida dos insetos, da seiva das árvores, Mas só me interessa o que se leva dentro.

ANÔNIMO

Posso ser o próximo A tombar no asfalto A rachar o crânio E ser coberto Com um lençol branco Cercado de curiosidade Inconsciente. Posso ser o próximo A cair numa cilada A ter a arma apontada Contra o peito Suplicando patético A quem não tem Misericórdia. Posso ser o próximo A ficar preso nas ferragens, A apanhar da polícia A ser apunhalado, A ter um membro amputado. A cortar os pulsos A sangrar, a tomar veneno, a ter câncer, a viciar em heroína, a respirar fumaça. Posso ser deportado Matar uma mulher Ter que provar inocência Ser arrastado pela corrente Ficar desaparecido Querer desparecer Ser o próximo A perder a razão. Dirão que é obra do acaso Que eu previra tragédia Quiça a busquei. Dirão tudo o que quiserem Mas serão só mais um Quando for sua vez Só mais um Em algum momento. É só O que Se é.
O susto quer me matar de tanto mundo.
O que é mais triste? Um amor que se acaba ou o que não chega a ser? A constatação de que o amor não salva; ou pelo contrário, perder-se?

GRITOS NA MADRUGADA

Gritos de horror na madrugada Este sou eu. Desperto em sobressalto Com o grito que não sei se é meu Da janela para fora Os homens em desespero Pavor na calada da noite Almas em desconserto Aqui dentro não há calma Só clamores que não se houve.
Essa música é simplesmente.
Já não preciso te ter para ser feliz com você.

Adoeci de mim mesmo

Ano novo

Notas frias em pedaços de vento disparadas sem qualquer sentimento como se houvesse sentimentos nas verdades fadiga das tardes horas de descanso já duram a vida repúdio ao não que insiste vontade da vida que já não cabe na permanência dos tempos espaços inviáveis de tempos em tempos refazer a vida não caibo mais em mim desejo o impossível, horizontes nos desejos dias melhores posso querer o que não creio esperanças ilusões de momentos depois de viver o que em mim coube quero o fim do mundo, o recomeço todos querem, sempre algo novo

A Lei do pai

Ele não entendia. Não concebia aquela dor: A morte do cão. Não vi nada Além das patas endurecidas Atrás da porta da cozinha. Chorava desolado. Lembro-me só do seu silêncio Ao lado do meu leito. Só depois soube do gesto heroico Ele o enterrou Dentro de um saco plástico, no campo. E lá fora um mundo De seres desterrados Sem compaixão.

Silenciar

Quando tudo o que eu teria era um grito Era viver a vida, só isso, e ele achava muito Seguir pensando que tantos têm seus motivos Ele não Quem o vê passar não imagina O seu problema algum. Todos os problemas do mundo eram seus E não havia como escapar. Há os que têm todos os motivos para ser infelizes E não são Outra vida, outro fim Outra vida, enfim. Basta fingir que é possível Deixar para trás Esquecer, ainda agora A próxima viagem Como seria a outra vida? O próximo destino. Mas há tempos ele não tem sossego É a página mal escrita, A leitura pela metade; Ele já não era todo. Deixou de ser quem era E não se fez outro. Seu corpo some daqui para baixo Ele não nota As ideias já não são suas Como ele, também não De ninguém. Observa a vida dos outros, Ele descrê. Crianças nascem, Ele desdenha. Painéis se multiplicam, Mas nenhum. Haveria ordem, uma maneira de recomeçar? Ele decide então morrer Até amanhã. Começar de novo De onde nunca parou.

CARTAS PARA SI

É da vida que se arranca a página Enviada a quem me destino Envio-lhe as partes de mim Sem qualquer resposta. Quiça me enviando nessas letras Poupo-me de despedaçar inteiro.
a gente sempre fica nesse campo sempre pisamos em ovos se já é difícil saber sobre nosso próprio desejo que dirá do desejo do outro vc vem me dizer que se perdeu que já não é isso precisa novamente encontrar-se enquanto eu estou perdido desde o primeiro dia em que te vi

Orixá

Ocorreu-me que minha realização, que eu poderia chamar artística, mas que é o próprio ápice da vida, ocorrerá na velhice, ou ao menos na meia-idade, que sempre foi, na verdade, minha idade real. A chegada do tempo marcará essa coincidência entre alma e corpo, e daí se dará o clímax que ainda não experimentei, a não ser esporadicamente. Obaluiyaê, um orixá que já nasce velho, filho da Terra Nanã; Que é refutado por causa de suas chagas e atirado ao mar, onde Yemanjá o acolhe e cria. Cobre o corpo com palhas para esconder as cicatrizes na sua pele; Adquire o dom de levar aos homens a doença e a cura, A transmutá-lo das situações de vida e em suas passagens evolutivas . Também conhecido como Omulu, é sincretizado com São Roque ou São Lázaro. Seu dia é a segunda-feira, e a comida, a pipoca. Orixá sem glamour, nada pop, mas que detém capacidades poderosas no mundo dos homens, como a de vingar-se secretamente.
Você me trouxe de volta ao chão Ao meu lugar que é a terra Aqui me sinto seguro Embora curta as novidades do ar e da água E às vezes o calor do fogo Por isso é tão difícil te deixar

No Xadrez

(En las trampas que armo, soy yo el mismo que caigo) Capturado ao seu jogo Em estratégias patéticas Fui perdendo uma a uma Com as poucas peças Que agora me restam Em cada movimento em que tento te cercar Fico um vez mais em xeque.

Biografia

Acreditava poder escrever uma biografia, algo completo, enciclopédico, total, como tudo que sempre busquei construir sob um intenso esforço. Era o tipo de saber em que sempre acreditei. Minha vida baseou-se numa compulsão a saber. Era uma criança que lia compulsivamente, até hoje tenho uma grande curiosidade e necessidade de preencher meu tempo com informações. Exaspera-me por exemplo, não saber o que ele pensa de mim, que quer de mim, que faz junto a mim. Mas diante do outro, com frequência, a posição em que me coloco é a de não saber. Havia na infância um certo compromisso com a inocência com relação ao saber sobre o sexo. Eu deveria fingir que não sabia, e aceitar o conhecimento que me era permitido, formal, asséptico, biológico. De repente dei-me conta que a única maneira possível é de não ser todo. Escrever sobre fragmentos da vida, sobre pequenas passagens que ganham às vezes algum relevo.
Na inconstância, permaneço. Eu tenho um sofrimento que é calado, O nome dele é Meu Pai. Outro que é estardalhaço, Que se chama Minha Mãe. Os dois são aflitivos. Um é inércia, o outro movimento; Um é constante, o outro muda todo o tempo; Um é permanência, o outro inconstância.

ALBOROTO

Alboroto Al hoz rojo El corazón Alboroto Albo rostro Mío Alboroto Algo roto Yo
Desde que me dei conta de que meu amor por você é uma espécie de vício, consegui reduzi-lo ao pó.
O que sou É isso me transborda E fala em meu lugar Fui arrasado e estou em frangalhos Como um vendaval Arrastou tudo e estou desabrigado E nem tenho por onde recomeçar
não sei me expor sem avisar que não presto.
Tenho o problema de só querer me exibir quando acabado. Deixo sempre para depois o momento da revelação, porque sou feito de coisas soltas e palavras esparsas. Espero o momento em que algo faça sentido, em que haja lógica, simetria, perfeição. Momento que nunca chega. Estou sempre inacabado. Essa é uma postura que se escolhe ou se toma diante da vida. Tem a vantagem da abertura, mas a desvantagem da instabilidade. Não posso mais esperar. Não posso simplesmente mostrar-me quando acabado estiver.
Sempre perguntam porque os psicólogos não acreditam em Deus. Formalizei meu ateísmo dessa maneira. Na verdade, não é que não possa acreditar em Deus. Mas acho que na relação do homem consigo mesmo e com os outros, existem espaços em que Deus não cabe.
Existe solução para a situação em que se instaura de repente um impasse com o corpo do outro? Quando você disse que tinha outro, logo pensei:  "It's not my business". Mas depois, isso era da minha conta sim. Exasperado para não ficar numa posição passiva que tanto me devasta De quem espera estrategicamente sofrimento calado Fui tomado de uma potência que me carregava o corpo Assaltado por uma energia que não me cabia, que me deixava Tornei-me o homem autoritário que subjuga. Depois disso, tive a sensação de estar suspenso, Quase não dormi e um choro convulsivo. Me carregou para o dia, incontidamente

Dois encontros, um dia

Dois encontros, um dia Dois em mim mesmo Um dia a mais em que já sou outro Um encontro, um dia a mais Menos um dia em que sou outro Menos um dia, um encontro a menos. Ilusão Permita-me acreditar mais uma vez Que é possível.

O que é que não tem remédio: a solidão ou o tédio? OU Receita contra a solidão

Aproxime-se e deixe passar o tempo Porque a solidão não tem remédio A cura é espera, passagem Resignação de alma solta, poeira no vento Retraimento em si mesmado Retorno ao involuntário de um mistério. Deixe passar, simplesmente. Na solidão se encontram as palavras Circulam soltas buscando alguém Assim, no anonimato Nomeando os sentimentos Assim se encontra a gente perdida De silêncio, de palavras, de pessoas. Silêncios e sonos cortados por gritos Profusão de vozes sem palavras Esse é meu mundo.

Umano

Escrever assim, sem o "h" é muito mais onesto. Muito mais coerente com a realidade dessa nossa espécie animal tão fundamentalmente desamparada, tão despreparada ao desafio de viver entre seus iguais. Palavra desprotegida de artifícios. Soumano, deveriam dizer.
Todos os dias pela manhã me levanto e procuro as notícias para saber se houve algum terremoto no Japão.

CAIANAS

"EU NÃO DEVIA TE DIZER  MAS ESSA LUA  MAS ESSE CONHAQUE  BOTAM A GENTE COMOVIDO COMO O DIABO." (C. D. Andrade) É tão cedo, você foi se deitar. Nem te disse boa noite e agora estou aqui, puxando sua coberta para que você não sinta frio, mas você atira longe, é sempre assim, você acorda descoberto da minha insistência. Depois de tanto tempo ainda não conheço seus hábitos, quando está cansado e não quer conversar. Nunca sei. Então começo a falar coisas para preencher esse espaço que entre nós é do silêncio. Você o tolera muito mais. Não é assim que você disse, que não sei ouvir meu silêncio interior? Acho que tem razão. Você sabe muito de quase tudo. E de mim, parece saber tudo. E eu, por outro lado; eu não sei quase nada de você, e já faz tanto tempo. Hoje dei volta do meu caminho e passei perto da sua porta, a ver se te encontrava por acaso. Você distraído e eu acenando para você notar. Tudo o que eu queria dizer naquela hora é que, para quem ...
Eu quero assim, a felicidade sempre à espreita, para me pegar desprevenido.

"Não dá mais não."

Aquelas palavras, ditas num tom brando, de suave cuidado, reverberavam como um estrondo, e ainda hoje; como um signo daquela compaixão que nos mantinha juntos, e que agora me rasga a carne de remorso e dor. Um equívoco. Tanto sua compaixão quanto o meu sofrimento. Todos aqueles gestos aparentemente voluntários, que o tempo mostrou que eram simples compensações pela falta de entrega, o amor abortado antes de nascer. Quem não se dá porque não tem, quem não dá porque não quer. Amor faz muito mal ao coração.

Deus não cura descuido

Ao final de todo preparo cuidadoso. Açucar no lugar do sal. Ele comeu.  Uma comida com gosto de excesso. Comeu porque era tarde para começar outro preparo. Comeu porque vira todo a dedicação dela no preparo. Comeu porque se amavam.

ADÃO - O PRIMEIRO HOMEM

Até hoje não conheci a imperfeição. Desde o primeiro sopro, a Criação apresentou-se perfeita. Mas a mim, algo sempre faltou. Das obras do sopro divino, eu deveria ser o mais humano. Ele deixava tudo sempre muito claro, não havia segredos. Segredos são para os mortais. Todos têm ao menos um. O meu já contei. Acho que eles não perceberam.  A primeira vez que fui expulso do paraíso, andei errante, incrédulo, fomos resgatados por um ser sem rosto, que me cegava de tanta luz, que o tornava para mim uma sombra. Enquanto ele nos reconduzia, senti um gosto pisado de barro em minha boca. Não reconhecia naquele gesto nenhuma bondade. Ela chorava emocionada ao meu lado, comovida com tamanha misericórdia, para sempre grata, nunca mais haveria de pecar. Escutei que bastaria não repetir os mesmos erros, não dar ouvidos à serpente, que eu nunca mais vi. Em pouco tempo, notei novamente minha nudez.  Não foi necessário escutar ninguém.  Dei-me conta de não haveria saída e que teria...
Eu seria capaz de tolerar todos os seus defeitos Mas não o seu desamor E assim são minhas palavras medidas Que querem dizer quase No lugar de tudo A parte que me toca é sempre essa

LEITO DE ANJO

Atravessando uma praça Pisei a cama de alguém. Meus pés imediatamente Tornaram-se puros De compaixão condoída, De repentina humanidade. Em casa, na infância, Pisaram meu leito limpo Com pés descalços de rua. Repreendi o descuidou Mas a mãe ensinou: - "Crianças têm pés de anjo". Num repente, os lençois Tornaram-se alvos ; Com a expiação do pecado Dormi como os inocentes. O leito desavisado; A visita inacabada: surpresa; Os pés, e normes e zombeteiros; A sobra:  vestígio  de homem. As profundezas também produzem Seus mensageiros alados. Não serafins de asas brancas Como as procissões de maio. Tornei-me anjo. Velando Paixões sem descanso; Repousos com penas, O Medonho dos sonhos. Anuncio boa-nova,  A redenção: - Asas que não podem voar: Praças aos que têm um leito, Leitos aos que só têm praças.

METÁFORAS BÉLICAS

Sou uma legião de desertores. Sou o exército dizimado após a rendição.

NÁUFRAGO

Até hoje não conheci a imperfeição. Desde o primeiro sopro, a Criação apresentou-se perfeita. Mas a mim, algo sempre faltou. Das obras do sopro divino, eu deveria ser o mais humano. Ele deixava tudo sempre muito claro, não havia segredos. Segredos são para os mortais. Todos têm ao menos um. O meu já contei. Acho que eles não perceberam.  A primeira vez que fui expulso do paraíso, andei errante, incrédulo, fomos resgatados por um ser sem rosto, que me cegava de tanta luz, que o tornava para mim uma sombra. Enquanto ele nos reconduzia, senti um gosto pisado de barro em minha boca. Não reconhecia naquele gesto nenhuma bondade. Ela chorava emocionada ao meu lado, comovida com tamanha misericórdia, para sempre grata, nunca mais haveria de pecar. Escutei que bastaria não repetir os mesmos erros, não dar ouvidos à serpente, que eu nunca mais vi. Em pouco tempo, notei novamente minha nudez.  Não foi necessário escutar ninguém.  Dei-me conta de não haveria saída e que teria...

Escrever

Escrevo como uma forma de retratação a mim mesmo. Pela crueza da vida, devido ao tempo que passa e deixa o que fomos perdidos para sempre no passado irrecuperável. Escrevo como quem esconde um tesouro para ser descoberto. Um tesouro sem qualquer valor inequívoco ou universal. O desafio da minha vida seria encontrar aqueles para quem ele teria algum valor. Sempre escrevo sobre mim mesmo. Não há espaço para fantasias ou imaginações. Não sou criativo. Minha escrita é sempre tudo que já foi, nunca o que será ou poderá ser. Uma repetição sem fim. É quase como uma denúncia.
Sonhos I- Autos: 1) Dirijo sozinho em uma estrada escura e quase vazia. Ao desacelerar para passar um quebra-molas, meu sapato sai do pé e impede que eu pise a embreagem. Permaneço com o carro parado em ponto morto, tentando pisar no pedal, temendo que venha atrás algum veículo em velocidade alta. Com o carro parado, adormeço. Acordo sobressaltado, já conseguindo engatar a primeira, passo o quebra-molas, mas ao abrir os olhos, não enxergo nada à minha frente, cego pela visão não acomodada à luz. E é assim que desperto, sem enxergar. II- Euros paraguaios 18/08/2012- Estava num supermercado onde tentava entrar uma multidão da qual eu fazia parte, pressionando uma corda que separava o espaço das gôndolas, cercada por seguranças que permitiam de pouco a pouco, a entrada de pequenos grupos. Foi o último a ser liberado por um deles num grupo, mas o lapso de tempo em que me demorei para entrar, fez com que outro pensasse que eu tinha invadido o espaço. Fiquei perplexo, indefeso por ser...

XANGAI

O sino de bronze chinês tem um som que penetra metalicamente, rompendo a turbulência do silêncio. Faz-nos retomar a percepção da existência, perdida no passar apressado do tempo. A batida abrupta e reverberante do bastão dá a sensação de que, de repente, o tempo voltou  a correr,  a começar a partir dali. Do extremo oriente vem tudo isso que nos reapresenta à diferença  mais pura . Das pessoas os traços que testemunham a variabilidade humana, repetitivos entre eles: os olhos oblíquos, a pele lisa, as mãos e pés pequenos e estreitos, quase infantis. Já nem me lembrava dela e, se não fosse por essa passagem que vou lhes contar, talvez nem tivesse qualquer memória da sua existência. Às vezes chego a duvidar da realidade desse episódio, pois minha lembrança é vaga e repleta de lacunas e incongruências, como um sonho. A única vez que me atrevi a tentar comprovar sua veracidade, senti que minha mãe desconversou: - E chinês é lá povo de fazer faxina? Parecia sem hi...