XANGAI
O sino de bronze chinês tem um som que penetra metalicamente,
rompendo a turbulência do silêncio. Faz-nos retomar a percepção da existência,
perdida no passar apressado do tempo. A batida abrupta e reverberante do bastão
dá a sensação de que, de repente, o tempo voltou a correr, a começar a partir
dali.
Do extremo oriente vem tudo isso que nos reapresenta à diferença mais pura. Das pessoas os traços que testemunham a variabilidade
humana, repetitivos entre eles: os olhos oblíquos, a
pele lisa, as mãos e pés pequenos e estreitos, quase infantis.
Já nem me lembrava dela e, se não fosse por essa passagem
que vou lhes contar, talvez nem tivesse qualquer memória da sua existência. Às
vezes chego a duvidar da realidade desse episódio, pois minha lembrança é vaga
e repleta de lacunas e incongruências, como um sonho. A única vez que me atrevi
a tentar comprovar sua veracidade, senti que minha mãe desconversou:
- E chinês é lá povo de fazer faxina?
Parecia sem história. Sequer sabia como ela tinha chegado;
da mesma maneira desapareceu. Uma pessoa que a aparência revela no lugar das palavras.
Muito branca, olhos repuxados, corpo mal ajustado de pequenez ao uniforme, ar
briguento, ressaltado por murmúrios na língua natal, que soavam como
xingamentos resmungados. Apesar de tão estranha, passaria despercebida. Era uma
peça a mais a fazer funcionar o sistema do lar. Trabalhava em silêncio, fazendo
a limpeza meticulosa de cada peça, de cada canto; e só ouvíamos seu ranhir agudo
quando de alguma maneira perturbávamos seu afã sempre diligente.
O fato que realmente importou durante sua curta permanência,
foi a chegada de um aparelho de som comprado por minha mãe. Era enorme, imponente,
moderno e foi colocado em um lugar recolhido ao canto da sala. Tilintavam suas
dezenas de botões e luzes enigmáticos, suas vozes e sons variados, os mil e cem
canais de rádio, acionados à distância ao toque de um controle remoto. Logo foi
alçado à condição de objeto mais valioso da casa, que as crianças não podiam
tocar, de funcionamento restrito ao período da noite ou aos dias de descanso da
família.
Ela obviamente já dera pela presença do aparelho, afinal,
ela era a pessoa encarregada de mantê-lo livre da poeira incômoda que ele
parecia atrair, ainda que ele estivesse quase sempre coberto por uma capa. Ao
vê-lo funcionando pela primeira vez, ela não pode conter o encanto. Naquele
momento, percebi que algo lhe tocara o âmago da alma e, pela primeira vez,
percebi naquela mulher um sopro de sentimento humano, uma ambição. Ela o
desejou imediatamente e pareceu-me que aos outros passou despercebido o que eu notei
com tanta nitidez: ela cobiçou aquele objeto, com todo seu ser e, a partir
dali, soube que seria capaz de tudo para possuí-lo.
Guardei aquilo em segredo, afinal, tudo não passara de uma
mera impressão de um momento em que eu mesmo poderia ter sido traído por
intuições tolas, como já se passara outras vezes. Mas pus-me atento. Percebi
como ela começou a demorar-se na limpeza do aparelho, detendo-se em cada sulco,
examinando detalhadamente os botões como se tentasse desvendar suas utilidades.
Enquanto cuidava de outras tarefas, notei que ela continuamente voltava o seu
olhar para aquele canto, como a adivinhar uma maneira de burlar o cerco que a
mantinha separada daquele objeto cobiçado. Ela de repente também passou a
cantarolar enquanto trabalhava, canções de musicalidade primitiva, creio que
folclóricas, como saber? O que importa é que tudo indicava que eu não me
enganara, que ela havia sido tocada por aqueles sons. Intui e vi crescer
naquela moça uma obsessão perigosa.
Tudo ficou ainda mais evidente naquele domingo. Acordei tarde, sabendo que todos haviam saído pela manhã.
Convencido de que ela não desistiria e continuaria – fazendo
a previsão de que a permanência dela anunciava problemas no futuro. Tive de
alertar a todos
burburinho das outras empregadas.
Ela o desejaria até o fim da vida, mataria por ele se fosse
preciso.
Surpreendi-a.
A chinesinha no quarto com o controle, afirmando que era
dela. Expliquei-lhe que eu conhecia sobre os desejos humanos.
Até dizer: - O psiquiatra sou eu.
Interrompi a frase quase sem terminá-la, surpreendido pela
revelação metálica vinda com o último fonema, estupefato diante da revelação
com que a minha voz me traíra.
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