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Mostrando postagens de novembro, 2015
O que é mais chato: a chatice em estado puro ou aquele que acusa a chatice dos outros? Hein?
Minha poética deveria ser mais potente Para ser capaz de encarar a dureza da vida Sei que me falta lastro de dinheiro de cultura de erudição de família Mas me sobram motivos Para resistir Para sobreviver Para passar por sobre É preciso começar, de algum modo Eu deveria falar mais da beleza Mas tudo que há de belo são ruínas

DISFARCES

Estou naqueles dias de ter que sair e chorar muitas e muitas vezes Nesta encenação terrível Do que foi a vida até aqui Vestir disfarces, Fingir o que sei O que não sou Quem não serei Dar a mão a mil mortes Descer aos fossos abissais Cavados em algum quintal da infância Na mesma inépcia de respirar à superfície
O amor não O amor não dá trelas à justiça O que prova a arbitrariedade do mundo Porque hoje a palavra mais importante Seria a tua a tua palavra Assim como para alguém  Seria a minha a minha Sem que eu desconfiasse

VIOLENTO CORAÇÃO

Se eu pudesse dizer tudo Diria que existe em mim uma violência disfarçada Como a de uma semente Descobri tarde demais que não sou homem de ciência Sou do coração Este mesmo que há de me matar um dia

MENSAGENS AO MAR

Encontrei meu próprio pedido de socorro Ninguém o encontrou, a não ser eu mesmo Como garrafas que se atira ao mar Foi póetico, foi instrutivo Só eu poderei salvar-me

HOMEM BOMBA

Quisera entregar-me à morte por acreditar Explodir-me por qualquer propósito Não por descrer
Estou naqueles dias de ter que sair e chorar muitas e muitas vezes nesta encenação terrível do que foi a vida até aqui. Vestir esses disfarces e dar as mãos à morte
Não, não é um jardim que estão a construir Mais uma vez, inocente, me enganei Hoje vi plantarem ali um bloco Do mais duro concreto É o triunfo definitivo das arestas Dos ângulos retos, retângulos Sobre a matemática complexa E amorosa dos círculos Do ferro sobre as pernas Dos viadutos
Especialista em criar nadas Especializei-me em cair no vazio Ter o mundo as mãos e não saber como vertê-lo Nas conquistas que me tomam a vida Para descatá-las em enfins Melhor seria doar todo o dinheiro Que fiz nesses anos em função de algo maior Algum sonho de alguém Nos meus não confio Já me equivoquei muito Algum dia acreditei
Caia Não se intimide A queda pode ser a redenção  As almas elevadas Não vão tão longe Venha ao chão Ainda é tempo  Ainda é cedo para tanto ar Monte no solo seus pés, seu ventre Incline-se à tentação Negue o movimento Que te mantém em sua gravidade Coma o pó Seja a lama Desça aos fossos Cavados em algum quintal da infância Nesta inépcia de respirar à superfície Nada de ventos, de voos, órbitas Esvazie-de de constelações De alturas Firme os pés E se arraste

Meio entendedor já basta para a boa palavra

Encontrado sem vida Em seu apartamento Trancado e nu Sem sinais de violência  Já com sinais de podridão  Entretanto adocicada como fruta podre Ninguém imaginaria  Uma morte tão estúpida Assim tão escandalosa Quebrar o pescoço No cúmulo pecado do autoerotismo E morrer sem gozar
O mundo inteiro comemora esta notícia Mas é mentira
Porque tudo, sempre, poderia ter sido dito de outra maneira.
Essa tristeza sem fundo Interminável
Guardava frases feitas, poemas Esperando o momento melhor para dizê-las Achava que tudo, sempre, Poderia ser dito de outra maneira E testava modos mais belos de dizer As palavras nunca estão prontas Mas o instante é sempre delas Seria o meu momento revelar-me?
Ele cantou ao meu lado aquela música triste. E nunca mais saí dessa melancolia
Sou o que sou Não abro mão Entretanto vou me fazendo bricolagens
Sou o único a ver vantagens nos tempos de crise em que cessa a frenética intenção do homem de ir além, de ultrapassar-se a todo custo, de evoluir e desenvolver uma sociedade mais arrojada. Retorna a calma, a cautela, a parcimônia. Vejo menos destruição, menos casas abaixo para dar lugar a arranha-céus.
Tremo, só de pensar Na chegada de A Teus Pés Que pedi pelo correio Mentira, Não o pedi Mas ainda assim, espero

ROLETA RUSSA

ROLETA RUSSA Bilhetes íntimos Indecifráveis, terríveis Sobre a penteadeira A fuga, em segredo, À tristeza sem fundo Interminável de morte No silêncio ocaso de domingo Coleções de perdas Depositadas a esmo Em sombrias urnas Armários embolorados Janelas emperradas Ruas vazias Livros brincam sozinhos, Brinquedos se descompõem, Roupas vão se embora, Sem qualquer explicação Só existe a beleza em ruínas E tudo o que se constroi em cima Avassala por dentro ....