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Mostrando postagens de fevereiro, 2016
achava que meu sofrimento era vermelho-sangue Mas no amor ele se fez tinta azul de Picasso

Compromisso com a tristeza

Sempre achei que a tristeza me salvaria. Que tivesse algum tipo de glória, traria inspiração. Não sinto-me inteiramente feliz se não estou um pouco triste. É como uma espécie de compromisso Não ser completamente feliz sendo alegre Ou não sendo um pouco triste
O anel A última vez em que nos vimos, ele me perguntou o que significava aquele anel no meu anelar direito, "namorando?", e eu respondi "não, é só um anel". Foi um encontro frio, ao acaso, em que procurei manter-me distante, controlado para não dar-lhe o murro prometido a mim mesmo. É o único anel que já usei. Foi durante uma viagem. Quis esse traço de alguma vaidade, eu que sou sempre tão básico e prático. Usar um anel. Demorei a encontrá-lo. Já havia passado por outras cidades, mas ali em Lisboa, o último é sempre mais esperado destino que me empenhei a encontrá-lo. A busca A compra descrição O medo de perdê-lo Hoje sonhei que eu o perdia. Subia por um caminho íngreme, rolando-o entre os dedos, quando ele caiu da minha mão e rolou terra abaixo, passando por entre galhos secos à beira do caminho. Corri para alcançá-lo, temendo perdê-lo de vista. Quando finalmente o encontrei, ele estava amassado, o asfalto desgastara suas inscrições H...
Não, você não causou uma boa impressão
Alcancei algum êxito em sobreviver, e é só isso Parece que para isso foi programado Quando me parece pouco diante de tudo o que é possível a um homem Mas pode ser muito quando se considera que levo uma vida razoavelmente honesta Ou reconhecendo meu status de privilegiado não tenha buscado ainda mais facilidades nao me julgue quando digo que agora só espero a morte Esse passar de dias, essa tristeza... Estou nas mãos de algum acaso Que possa reacender em mim a chama da alegria Alguma fortuna inesperada Um encontro de amor
Estou vivo? 27 anos. Sol em gêmeos Galáxias distantes Façam suas apostas Nocaute no primeiro round Dúvidas irresolvidas Volte duas casas Ganha quem chega ao início Pegue o morto Pisque discretamente São quatro os elementos Nenhum avulso Todos pareados na primeira casa Mantenha, sentido Baixe a persiana à primeira luz do sol

o irmão que eu não tive: memórias de uma ausência

Não tive, nunca terei. Minha infância, e percebo cada vez mais, minha vida inteira, até hoje foi e é marcada por essa ausência. Para que se entenda o que vou contar, é preciso conhecer um pouco da minha história. Nasci em 1976 em uma pequena cidade de 15 mil habitantes no sudeste de Minas Gerais, uma região chamada de zona da mata. Um vale onde já existiu uma faixa da mata atlântica, há muito desmatada, da qual não restam senão algumas ilhas de verde. Cercada de montanhas suaves, cortada por um rio que lhe dá o nome, minha cidade se esforça por ser Meus pais, um casal jovem, muito querido da cidade. Meu pai, filho da cidade, de uma família pobre de quem ele foi o esteio desde que foi aprovado num concurso para o primeiro emprego. Minha mãe, filha de migrantes baianos, de melhor condição social cujo pai se suicidara um ano após meu nascimento. Eu tenho o nome desse avô. Quando nasci, já tinham duas filhas. Naquela época não se conhecia o sexo do bebê antes de seu nascimento. Se eu f...
Ok, ela era brilhante, admito. Mas não era obrigada e saber de tudo isso que eu sei. Em quarenta anos, produziu-se muita coisa; só eu sei. Ela não pode saber porque morreu jovem. A glória maior, a juventude eternizada, o auge perpetuado. Ainda mais sendo uma morte trágica, que todo mundo respeita mais, cria-se essa aura irresistível. Eu não, eu nunca tive coragem. Já quis morrer muitas vezes, tantas mais do que eu tive coragem de viver. Sempre quero desculpar esse minha, como é mesmo? Esterilidade. Sim. Daqui nada sai, nem um vento. Nenhuma doutrina nenhuma poesia. Filhos menos ainda. Mas isso ela também não teve, ao menos que eu saiba. Porque há coisas que eu também não sei, mesmo havendo passado tanto tempo...
A alegria, já experimentei Hoje só a espreito, observo-a de longe A felicidade me doi no fio mais fundo da alma Nem a mais profunda tristeza me inspira a produzir nada de belo Esse é o máximo da ausência de saídas Não restou nenhuma das ilusões que alimentavam minhas esperanças Não acredito nos encontros, já tive muitos Nem no prazer Um corpo estendido numa cama Já não me diz nada que não seja: morte É solidão sem tamanho Dessa decrepitude do corpo Notada dia a dia É tanto mais me angustia Tanto mais sei que não produzi Não fertilizei o mundo Nunca havia me dado conta antes: O carnaval é uma coisa triste Uma festa que sempre me exclui Eu só usaria uma fantasia que deixasse dúvida Se era eu mesmo o personagem Não pude ser mais que um sopro na vida de alguém