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Denuncio: há palavras demais É preciso reduzi-las Ao mínimo necessário Não entendo por que as pessoas continuam escrevendo Se tudo já foi dito E de maneira melhor Ainda não li nem um terço dos livros que quero E continuam escrevendo... Querem me enlouquecer Há sobretudo um gasto delas, um desperdício, as pessoas têm usado palavras demais
Eu queria ter sempre um segunda chance, poder recomeçar Mas não sei se eu saberia fazer melhor. Queria ter um pouco mais de ilusões
Busco alguém para dividir essa tristeza. Alguém que compreenda o desencanto com o mundo. Que saiba chorar sem soluços, discretamente e em silêncio o descalabro de viver.
O que é mais chato: a chatice em estado puro ou aquele que acusa a chatice dos outros? Hein?
Minha poética deveria ser mais potente Para ser capaz de encarar a dureza da vida Sei que me falta lastro de dinheiro de cultura de erudição de família Mas me sobram motivos Para resistir Para sobreviver Para passar por sobre É preciso começar, de algum modo Eu deveria falar mais da beleza Mas tudo que há de belo são ruínas

DISFARCES

Estou naqueles dias de ter que sair e chorar muitas e muitas vezes Nesta encenação terrível Do que foi a vida até aqui Vestir disfarces, Fingir o que sei O que não sou Quem não serei Dar a mão a mil mortes Descer aos fossos abissais Cavados em algum quintal da infância Na mesma inépcia de respirar à superfície
O amor não O amor não dá trelas à justiça O que prova a arbitrariedade do mundo Porque hoje a palavra mais importante Seria a tua a tua palavra Assim como para alguém  Seria a minha a minha Sem que eu desconfiasse

VIOLENTO CORAÇÃO

Se eu pudesse dizer tudo Diria que existe em mim uma violência disfarçada Como a de uma semente Descobri tarde demais que não sou homem de ciência Sou do coração Este mesmo que há de me matar um dia

MENSAGENS AO MAR

Encontrei meu próprio pedido de socorro Ninguém o encontrou, a não ser eu mesmo Como garrafas que se atira ao mar Foi póetico, foi instrutivo Só eu poderei salvar-me

HOMEM BOMBA

Quisera entregar-me à morte por acreditar Explodir-me por qualquer propósito Não por descrer
Estou naqueles dias de ter que sair e chorar muitas e muitas vezes nesta encenação terrível do que foi a vida até aqui. Vestir esses disfarces e dar as mãos à morte
Não, não é um jardim que estão a construir Mais uma vez, inocente, me enganei Hoje vi plantarem ali um bloco Do mais duro concreto É o triunfo definitivo das arestas Dos ângulos retos, retângulos Sobre a matemática complexa E amorosa dos círculos Do ferro sobre as pernas Dos viadutos
Especialista em criar nadas Especializei-me em cair no vazio Ter o mundo as mãos e não saber como vertê-lo Nas conquistas que me tomam a vida Para descatá-las em enfins Melhor seria doar todo o dinheiro Que fiz nesses anos em função de algo maior Algum sonho de alguém Nos meus não confio Já me equivoquei muito Algum dia acreditei
Caia Não se intimide A queda pode ser a redenção  As almas elevadas Não vão tão longe Venha ao chão Ainda é tempo  Ainda é cedo para tanto ar Monte no solo seus pés, seu ventre Incline-se à tentação Negue o movimento Que te mantém em sua gravidade Coma o pó Seja a lama Desça aos fossos Cavados em algum quintal da infância Nesta inépcia de respirar à superfície Nada de ventos, de voos, órbitas Esvazie-de de constelações De alturas Firme os pés E se arraste

Meio entendedor já basta para a boa palavra

Encontrado sem vida Em seu apartamento Trancado e nu Sem sinais de violência  Já com sinais de podridão  Entretanto adocicada como fruta podre Ninguém imaginaria  Uma morte tão estúpida Assim tão escandalosa Quebrar o pescoço No cúmulo pecado do autoerotismo E morrer sem gozar
O mundo inteiro comemora esta notícia Mas é mentira
Porque tudo, sempre, poderia ter sido dito de outra maneira.
Essa tristeza sem fundo Interminável
Guardava frases feitas, poemas Esperando o momento melhor para dizê-las Achava que tudo, sempre, Poderia ser dito de outra maneira E testava modos mais belos de dizer As palavras nunca estão prontas Mas o instante é sempre delas Seria o meu momento revelar-me?
Ele cantou ao meu lado aquela música triste. E nunca mais saí dessa melancolia
Sou o que sou Não abro mão Entretanto vou me fazendo bricolagens
Sou o único a ver vantagens nos tempos de crise em que cessa a frenética intenção do homem de ir além, de ultrapassar-se a todo custo, de evoluir e desenvolver uma sociedade mais arrojada. Retorna a calma, a cautela, a parcimônia. Vejo menos destruição, menos casas abaixo para dar lugar a arranha-céus.
Tremo, só de pensar Na chegada de A Teus Pés Que pedi pelo correio Mentira, Não o pedi Mas ainda assim, espero

ROLETA RUSSA

ROLETA RUSSA Bilhetes íntimos Indecifráveis, terríveis Sobre a penteadeira A fuga, em segredo, À tristeza sem fundo Interminável de morte No silêncio ocaso de domingo Coleções de perdas Depositadas a esmo Em sombrias urnas Armários embolorados Janelas emperradas Ruas vazias Livros brincam sozinhos, Brinquedos se descompõem, Roupas vão se embora, Sem qualquer explicação Só existe a beleza em ruínas E tudo o que se constroi em cima Avassala por dentro ....
Labor, muito mais que inspiração
O importante não é só a fé que se tem Mas a fé que se deseja e que se busca.
Desculpem, ela é minha. Tirem seus olhos. Afastem-se. Salve-se quem puder. Cheguei primeiro. Não divido. É tudo que posso querer.
A classe A infância é o tempo que frequento sempre. Na sala de aula, mesas quadrangulares. Em cada lado, uma criança. Ao centro de cada mesa, um pote de iogurte de plástico invertido sustentava um personagem infantil de quadrinhos. Onde havia personagens masculinos, se sentavam os meninos.  O menino com os braços estendidos a fazer uma escolha que sabia irremediável. Aquela escolha entre o direito e o esquerdo determinaria todo o rumo que sua vida tomaria a partir de então. Não havia como voltar atrás.
Por que preciso ir até o fim para dizer que não?
Urgente Não pode ter pressa quem planta uma árvore. Plantio de uma árvore – esperar sombra e frutos Deve ter pressa a mulher para ter filhos Tempo para engravidar A angústia de morte como combustível à vida.
Cancelem o noticíário internacional Que importa o que se passa fora daqui? Se tudo o que existe é essa dor? Se tudo o que existe é o Brasil? Esta síntese perfeita de um mundo imperfeito Este povo varonil Esta terra que desde sempre acolhe os desterrados Cuja única honra é chegar aqui Portugueses desecaminhados, Pretos da África que escaparam ao estigma do continente mais miserável, Fugitivos das guerras, da fome e da desesperança Desde o Japão até o Haiti
Seria minha desforra Meu triunfo contra o mundo Que me oprime desde o primeiro Me entender Uma justificativa útil Aceitável para minha reclusão A explicação definitiva Da minha inconformidade
Essas lágrimas que passaram a brotar sem limites, em qualquer lugar, em qualquer situação, ainda que eu não estivesse emotivo me levavam a perceber a tristeza, a beleza ou a de cada momento do meu dia me causando um tremor por dentro e um estado de sensibilidade quase contínuo. Parecia que eu não poderia viver assim muito tempo, passei a ter dúvidas loucas que nunca me ocorriam, como se a lágrima tinha gosto diferente se era de alegria ou melancolia, se era capaz de corroer o mais duro metal tanto mais intenso o sentimento que a gerasse. Não eram choros, eram sentidos, sentimentos, contidos, de quase se tocar. Transbordamentos suaves, imperceptíveis. Vento em deserto. Brisa em alto mar. Lágrimas derramando-se como lava. Passei uma década com esse tremor, essa tormenta de serenos. A umedecer continuamente cada experiência. A
um poema é como bala perdida um tiro sem alvo que te atinge distraído  te sangra e te expõe as entranhas (mas será que só é capaz de atingir uns poucos)
Se um dia vc retornaria, se me procuraria depois de cessada a dor,
Muito cedo foi semeado em mim este germe terrível da inconformidade. Isto explica muita coisa.

Mudança

Como se fosse fácil Como se um querer bastasse

terra natal

As pessoas conhecidas com quem nunca falei, sequer sabia o nome. A praça que era enorme e cheia de esconderijos. Havia muito mais mistério, quintais e lotes vagos. Pouco restou do lugar em que cresci. Cada falha nas calçadas guardava um pouquinho do meu afeto, um pular de pisada, um pique inventado.

Ela trouxe a Pietá

Ela foi à Itália E trouxe uma Pietá. Dentre tudo o que viu - Davids imponentes, Pinocchios, rosários, Calendários de papas - Foi o que ela trouxe. Aquela imagem inclinada em compaixão. Obra dita por si. Numa miniatura rudimentar. Um pedaço de pedra branca Sobre um pedestal negro Com inscrição em latim. Entretanto, como poderia a mulher Se compadecer daquele Que haveria de salvar sua alma? Ela me trouxe a piedade Daquela estrela-do-mar Colhida triunfante de um fundo De areia numa tarde de sol Levada à casa como um troféu Que no retorcer-se o cair da noite Em remorsos me lembrou Que ali havia uma vida. Levou-me ao mar para devolvê-la E consolava-me dizendo do mal Que fazemos sem querer Nossos próprios passos Esmagavam formigas Sem mesmo perceber. Estava ao meu lado Até que eu vencesse O medo e a covardia. Atirando-me à água fria. A devolver a estrela De onde foi tirada. A salvação daquelas almas.

Última ilusão

Meu último rastro de algum sentimento Sigo tentando escapar deste vácuo deixado por sua passagem Em tudo o que faço desde então falta teu nome Esta gravidade imensa que atrai tudo para si Buraco negro Revelando-me minha nudez Melancolia de salvar meus dias A julgar que só havia um motivo Para esta imensa tristeza. Expondo de uma vez tudo Que sempre foi Falta em mim Essa melancolia que salvava os meus dias quando eu julgava que só havia um motivo Naquela viagem para salvador, a forma como eu me referia a vc, um Depois de vc tudo o que fiz trazia a falta do seu nome Todos os esforços vãos de tornar a ter a felicidade de um dia As noites sem sono de cama fria

Descaminho

Eu era só um menino. Com os braços estendidos sobre a mesa da escola, absorto em mim mesmo, imaginando que fossem estradas por onde minha vida seguiria, via aqueles dois caminhos à frente e sabia que só podia escolher um deles. E que isso determinaria todo o meu futuro. Apenas duas opções e eu sempre carreguei a impressão de ter escolhido o lado errado. As mesas quadradas tinham ao centro um pote de iogurte emborcado onde estava colada a figura de um personagem dos quadrinhos. Eu demorei a aceitar estar ali. Contam-me que eu preferia a sala ao lado da professora velha e severa que ensinava às crianças mais crescidas como juntar as sílabas. Mas concordei depois de algum tempo em estar ali, talvez o primeiro ato de conformidade, o adestramento da minha rebeldia, caminho seguro por que segui durante muitos anos, até novamente rebelar-me e encontrar-me até agora desnorteado, sem ter por onde seguir. Agora eu estava ali, num dos lados daquele quadrado, em torno dos quais a cada lado havia...
Seria um mero detalhe. Mas era um encontro. Um homem e uma mulher. A melhor se conhecerem. Vendo-se pela segunda vez. Tudo ia bem. Conversaram. Dividiram elogios. Fizeram seus pedidos. Comentários sobre outros fregueses. Jantaram. E sobrou aquele pedaço de uma folha verde nos dentes dela. Tudo então se transformou. Pensou em dizer-lhe. Mas o que seria melhor? O que causaria o menor constrangimento? Podia simplesmente dizer, naturalmente. Mas pensava no efeito que essas palavras teriam. Tinha tudo para ser um encontro perfeito. Mas teve aquela folha de alface no dente dela. Causou a melhor impressão possível, mas quem diria que um simples detalhe poderia ter semelhante efeito? Era a primeira vez
Você foi o último suspiro das ilusões que eu poderia criar. Depois que passou, não restou mais nada, como um vendaval, uma grande tragédia sobre o espírito, não há por onde recomeçar, não há por onde reconstruir. Passei toda a vida a esvaziar-me de todas as ilusões, em busca de uma felicidade que fosse pura essência, que fosse completamente genuína, mas não se pode ser feliz sem enganar-se, essa é a grande verdade da vida. A essência é ser frágil e transitório, desse material é que somos feitos e não há como escapar. Eu tentei escapar, tentei que minha vida fosse diferente, era crítico com o modo de vida das pessoas, me encastelei, atirei ao pó tudo o que construí e que me soava falso, artificial. Daqui do castelo assisto a festa dos plebeus que sabem viver. Eu não aprendi. Quis ser só, quis aproveitar ao máximo meu tempo para buscar conhecimento, para saber desviar-me das armadilhas enquanto eu as montava para mim mesmo.
Trato as palavras como um jardineiro. Antes de tudo, preparo o terreno em que elas brotarão. Mexo e revolvo, deixo descansar, adubo com.. lanço as sementes. Podo cuido das ervas das pragas A semear em mim sentimentos em um mundo de aridez interminável. Não encontro a terra fértil do semeador, mas um coração sufocado por pedras e ferido pelos espinhos, cujo broto é fruto de pesado labor contra o exaspero do cotidiano. Que haja no mundo flores, vida, germinação.
Não diga nunca que me quer Diga somente que me ama E em momento bem oportuno Depois das precipitações Do enamoramento instantâneo
Não temos futuro É o que dizem, é o que penso. Porém é justamente o que não quero pensar agora. Estou aqui, você também. Só isso deveria importar. Mas não. Existe o tempo, existe o espaço. A distância que agora não percebo. Melhor assim. Você não fica, eu não vou. Ficamos aqui, para sempre. Não posso dizer que só isso me importa. Se fosse só por hoje, eu não estaria aqui. Não sei. Quando te toco quero a impressão do seu corpo. Quero a permanência. Só nisso penso. Ser feliz, è muito é pouco. Quero o muito antes de alguma felicidade. O crente que vive do porvir. O agora não me importa; Às favas a eternidade do momento. Quero sempre, o depois.
chora, porque sente que é iminente o fim daquele amor porque pela primeira vez com ela, se pega tendo as mesmas atitudes que tinhas com os outros que acabaram deixando-a: arrumar cuidadosamente a casa, preparar-se com esmero para sua chegada, tudo isso que destruía o seu amor.
A bebida que ela sempre me preparou perdeu o sabor, o que me leva a suspeitar do fim de seu amor por mim, mas dou-me conta de que ela faz tudo como dantes e que eu é que não a quero mais.

O sabor que te abandonou

Começou com um inocente curso de vinhos. Sorria interiormente quando via algum casal lalalalala Em um restaurante. Comida. Harmonizar. Logo, também a água Nada mais satisfazia suas exigências. Definhar
Meu primeiro amor me levou para os jornais. Com foto na capa da página policial. Eu tinha 5 anos. Era minha coleguinha da pré-escola. Já no início da vida escolar tive que lidar com agrurias da paixão. Sim, porque foi um amor cercado de cordialidade e dor, antecipando quase todos os outros que tive pela frente. Fazia tudo por ela. Cedia os brinquedos, oferecia minha merenda. Os adultos não suspeitavam que aquilo fosse um amor. Achavam engraçadinho aquele menino cercando de cuidados a caçulinha da turma. Ela recebia os agrados com a indiferença de uma rainha. Era rósea e tinha os cabelos claros, ralos e lisos. O corpo era roliço, com dobrinhas que já faltavam nas coleguinhas mais crescidas. Os olhos caiam no sono num segundo. Se não me engano, tirava uma soneca de vez em quando num colchão em algum canto da sala. E tinha uma particularidade: usava fraldas, ainda. Traço essencial de afeição. Era como a nostalgia de uma fase minha recentemente vencida. Chamava-se Alice, tinha a me...

Quarentena

Afinal, qual será o fado: Seguir o destino traçado Ou buscar o caminho distinto? Admitir que está consumado Ou insistir no extravio?
Silêncio é resposta
Disse-me que sou uma incógnita. Entendeu-me perfeitamente.

Morte escrita

Estava deprimido? Não. Tinha andando a sofrer por um amor não respondido, mas agora a dor já estava do seu adequado tamanho. Queda da janela. Investigam e não h indícios de que tenha se jogado. Estava lendo um livro e estava para mais metade. Mais tarde, a mãe descobre que era a história de um velho que se suicidava. Na parte em que ele estava. Depois descobriam que foi um acidente. Mas a morte dele não. - sim, ele andava bem deprimido. Era um homem solitário, não se tem noticia que tivesse família ou viviam longe, porque as vezes ele sumia por uns tempos. (Ao final, só o leitor sabe que fora um assassinato)

Sonho 03-01-15 (alianças de ouro)

Estava em Juiz de Fora e entrei em uma loja de grife para comprar duas alianças de ouro, tendo quatro alianças de ouro sem grife no bolso. Ali me informaram que o ouro estava em falta, se esgotando e seria muito difícil encontrar o que procurava.  (durante o dia havia visto uma reportagem sobre a escassez do cacau gerada pelo aumento do consumo de chocolate, e os motivos para a falta de ouro no sonho eram parecidos) Na loja também havia outros produtos, roupas, que o vendedor, por quem fiquei atraído, insistia que eu visse, mas eu negava. Revelei, então, que eu trazia as quatro alianças no bolso, as quais eles desprezaram. Fui para a casa, o apto em que morei na Mal Deodoro. Joel havia me chamado para ir com ele a uma festa. À noite cheguei à festa, em um local próximo, havia uma enorme fila e os convidados eram conduzidos um a um ao salão, que ficava em um andar superior. O mesmo aconteceu comigo. Quando os recepcionistas me conduziram ao elevador, o seu espaço era muito pequeno...