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Mostrando postagens de março, 2012

LEITO DE ANJO

Atravessando uma praça Pisei a cama de alguém. Meus pés imediatamente Tornaram-se puros De compaixão condoída, De repentina humanidade. Em casa, na infância, Pisaram meu leito limpo Com pés descalços de rua. Repreendi o descuidou Mas a mãe ensinou: - "Crianças têm pés de anjo". Num repente, os lençois Tornaram-se alvos ; Com a expiação do pecado Dormi como os inocentes. O leito desavisado; A visita inacabada: surpresa; Os pés, e normes e zombeteiros; A sobra:  vestígio  de homem. As profundezas também produzem Seus mensageiros alados. Não serafins de asas brancas Como as procissões de maio. Tornei-me anjo. Velando Paixões sem descanso; Repousos com penas, O Medonho dos sonhos. Anuncio boa-nova,  A redenção: - Asas que não podem voar: Praças aos que têm um leito, Leitos aos que só têm praças.

METÁFORAS BÉLICAS

Sou uma legião de desertores. Sou o exército dizimado após a rendição.

NÁUFRAGO

Até hoje não conheci a imperfeição. Desde o primeiro sopro, a Criação apresentou-se perfeita. Mas a mim, algo sempre faltou. Das obras do sopro divino, eu deveria ser o mais humano. Ele deixava tudo sempre muito claro, não havia segredos. Segredos são para os mortais. Todos têm ao menos um. O meu já contei. Acho que eles não perceberam.  A primeira vez que fui expulso do paraíso, andei errante, incrédulo, fomos resgatados por um ser sem rosto, que me cegava de tanta luz, que o tornava para mim uma sombra. Enquanto ele nos reconduzia, senti um gosto pisado de barro em minha boca. Não reconhecia naquele gesto nenhuma bondade. Ela chorava emocionada ao meu lado, comovida com tamanha misericórdia, para sempre grata, nunca mais haveria de pecar. Escutei que bastaria não repetir os mesmos erros, não dar ouvidos à serpente, que eu nunca mais vi. Em pouco tempo, notei novamente minha nudez.  Não foi necessário escutar ninguém.  Dei-me conta de não haveria saída e que teria...

Escrever

Escrevo como uma forma de retratação a mim mesmo. Pela crueza da vida, devido ao tempo que passa e deixa o que fomos perdidos para sempre no passado irrecuperável. Escrevo como quem esconde um tesouro para ser descoberto. Um tesouro sem qualquer valor inequívoco ou universal. O desafio da minha vida seria encontrar aqueles para quem ele teria algum valor. Sempre escrevo sobre mim mesmo. Não há espaço para fantasias ou imaginações. Não sou criativo. Minha escrita é sempre tudo que já foi, nunca o que será ou poderá ser. Uma repetição sem fim. É quase como uma denúncia.
Sonhos I- Autos: 1) Dirijo sozinho em uma estrada escura e quase vazia. Ao desacelerar para passar um quebra-molas, meu sapato sai do pé e impede que eu pise a embreagem. Permaneço com o carro parado em ponto morto, tentando pisar no pedal, temendo que venha atrás algum veículo em velocidade alta. Com o carro parado, adormeço. Acordo sobressaltado, já conseguindo engatar a primeira, passo o quebra-molas, mas ao abrir os olhos, não enxergo nada à minha frente, cego pela visão não acomodada à luz. E é assim que desperto, sem enxergar. II- Euros paraguaios 18/08/2012- Estava num supermercado onde tentava entrar uma multidão da qual eu fazia parte, pressionando uma corda que separava o espaço das gôndolas, cercada por seguranças que permitiam de pouco a pouco, a entrada de pequenos grupos. Foi o último a ser liberado por um deles num grupo, mas o lapso de tempo em que me demorei para entrar, fez com que outro pensasse que eu tinha invadido o espaço. Fiquei perplexo, indefeso por ser...

XANGAI

O sino de bronze chinês tem um som que penetra metalicamente, rompendo a turbulência do silêncio. Faz-nos retomar a percepção da existência, perdida no passar apressado do tempo. A batida abrupta e reverberante do bastão dá a sensação de que, de repente, o tempo voltou  a correr,  a começar a partir dali. Do extremo oriente vem tudo isso que nos reapresenta à diferença  mais pura . Das pessoas os traços que testemunham a variabilidade humana, repetitivos entre eles: os olhos oblíquos, a pele lisa, as mãos e pés pequenos e estreitos, quase infantis. Já nem me lembrava dela e, se não fosse por essa passagem que vou lhes contar, talvez nem tivesse qualquer memória da sua existência. Às vezes chego a duvidar da realidade desse episódio, pois minha lembrança é vaga e repleta de lacunas e incongruências, como um sonho. A única vez que me atrevi a tentar comprovar sua veracidade, senti que minha mãe desconversou: - E chinês é lá povo de fazer faxina? Parecia sem hi...