NÁUFRAGO

Até hoje não conheci a imperfeição. Desde o primeiro sopro, a Criação apresentou-se perfeita. Mas a mim, algo sempre faltou. Das obras do sopro divino, eu deveria ser o mais humano.
Ele deixava tudo sempre muito claro, não havia segredos. Segredos são para os mortais. Todos têm ao menos um. O meu já contei. Acho que eles não perceberam. 
A primeira vez que fui expulso do paraíso, andei errante, incrédulo, fomos resgatados por um ser sem rosto, que me cegava de tanta luz, que o tornava para mim uma sombra. Enquanto ele nos reconduzia, senti um gosto pisado de barro em minha boca. Não reconhecia naquele gesto nenhuma bondade. Ela chorava emocionada ao meu lado, comovida com tamanha misericórdia, para sempre grata, nunca mais haveria de pecar. Escutei que bastaria não repetir os mesmos erros, não dar ouvidos à serpente, que eu nunca mais vi.
Em pouco tempo, notei novamente minha nudez. Não foi necessário escutar ninguém. Dei-me conta de não haveria saída e que teria mesmo de me sustentar com o suor do rosto. Mas errei. Ainda que eu já tivesse o conhecimento do Bem e do Mal, foi-me permitido permanecer e continuei gozando das delícias. Sabia que ela também mudara; nessa época ainda só havia ela, que também estava nua.
Eu, porém, continuava decidido a renunciar. O Paraíso não me condizia. Fui novamente expulso. Tentei atingi-la na nuca. Era seu segredo; só eu sabia. Ela estendeu a cabeça para trás, em êxtase, virou para beijar-me apaixonada, buscando minha boca, enquanto eu soprava de leve no seu ouvido. Senti-me vitorioso. Ela não percebia a infâmia que me movia. Ele veio e me retirou a pontapés.
Ainda não sabia da existência de outros mundos. Esperava algum sinal d’Ele. Enquanto isso comia frutos caídos do pé, caçava uns bichos preguiçosos, comia larvas da terra, até que tomado pelo tédio quis me ocupar de algo. Aprendi a adivinhar tempestades.  Ficava à espreita de qualquer sinal do céu ou mudança nos ventos que pudessem anunciá-las. Perseguia as chuvas, gostava de ver o céu se partir e seu estrondo. Logo, desabava a chuva e eu ficava de novo sem qualquer função.
Só eu sei o que é a solidão fora do paraíso. Os outros foram expulsos com suas partes, ao menos, tiveram filhos, povoaram a Terra. Aqui, a existência humana caberia somente a mim. E ainda me doía a costela retirada... Somente a mim... A falta que me fazia. 

Continuei em busca de outra ocupação, mas não havia a quem fazê-lo. A criação ainda não estava completa, surgiam outros animais, que às vezes eu nomeava. Imaginava que outros planos Ele teve. Formaria outra descendência? Teria dado fim à ideia de um Paraíso?
Meus descendentes surgiram. Apareciam do nada, não sei como. Despertava de madrugada ouvindo um choro de felino, que seguia como aos trovões, até deparar-me com alguma criança descoberta e envolvida em lama em meio a alguma folhagem. Nunca havia visto antes um bebê. Soube imediatamente tudo o que deveria fazer. Inclinei-me para suspendê-lo. Eles se sucediam, meninos, meninas, nem tinha tempo de criá-los, já vinham outros, se espremendo nas tetas das cabras e das ovelhas que passei a pastorear. Eles cresciam rapidamente, saiam andando e falando, alguns morriam, outros eu matava, mas vinham outros e outros, já nem podia contá-los. Como se intuíssem alguma missão, acasalaram-se muito cedo, antes de chegarem a ser adultos. Deixaram de aparecer quando nasceu do ventre de uma delas a primeira criança. Já eram então centenas, todos semelhantes a mim, loiros, morenos, amarelos, negros, azuis, verdes e sem cor.
Eu já me tornava velho. Percebia que estávamos à nossa própria sorte. As leis d’Ele não valiam ali. Seria atribuída a mim a desordem do mundo, a salvação dos homens, o pranto das crianças, a música ao fundo, não errar os passos, suportar as dores. Dependia de mim que os homens tivessem ouvidos, que pudessem ter comida à mesa, consolo na dor.
Recusei qualquer dádiva gratuita. Disse que não deveriam matar-se, embora tenha participado do último sacrifício. Poucos aceitaram minha autoridade, já eram livres e eu estava novamente só. O resto da história vocês já sabem, o mundo que você conhece é testemunha dela.
Minha vida, nem sempre, mas faz muito, dependia da indulgência de todos, dos homens, de Deus. Sempre me dei conta da minha nudez, mas demorei saber que a ordem do mundo estava nestas mãos. E eu descuidei das minhas mãos. Vivi desde então tomado pelo desespero de saber o que viria sempre depois e mais, ser responsável por isso, só dependia de mim.
Hoje o mundo está cheio e eu sigo despovoado. Não há como habitar um mundo assim, esse em que eu fecho os olhos e já não sou eu. Até hoje não compreendo qual era o projeto d’Ele. Estou certo que Ele sabia de tudo. Por que criar imperfeito aquele que viria a destruir sua obra mais perfeita? Ou desistiu de inventar sempre novos projetos. Nunca entendi a eternidade e o infinito. Caí nesse sono profundo. Virei esse pó em que você pisa. Nunca mais despertei.

PS: depois me dei conta de que só havia restado ele, sempre sobrando e contando uma história óbvia.

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