Ele agora dobra uma esquina. Daqui a pouco chega em casa, tira o uniforme para evitar o castigo. Faz os deveres antes de sair. Segue com a camisa branca, com um rasgo embaixo. A mesma que usou na apresentação da escola. No palco, tentava esconder
Agora, todos cumpriam um destino traçado, repetiam os pais, suas crenças, suas posições. Mesmo os que eram mais rebeldes, se surpreendia a que ponto de conformidade havia chegado. Aquela colega que rira descontroladamente enquanto ele tentava esconder o rasgo no pano, com a mão esquerda levantada a frente apoiada na barriga. Cantava. A outra ria.
A incerteza. O certo é que não podia mais. Não aquela cidade, não aquela vida. Morreria. O interesse se perderá, não havia lugar que desejasse ir ou comida que imaginasse. Podia tudo e não queria nada, podia tudo dentro do que constituiu como possível.
Hoje chegou atrasado, mostrou as meias como de praxe. Música ensaiada, letra decorada, podia ter sido outra, estava melhor, mas a sua não ofendia, estava ao gosto do mês das vocações. Era mais fácil, repetia o refrão sem olhar ao redor. A mão sobre a barriga que era grande, não se via os pés no banho, deram-lhe um apelido.
Ali ninguém o conhecia e era esse o propósito. Uma vida nova. Que fosse possível. Não pode, logo nas primeiras semanas precisou dos contatos que a amiga deixara, e ele nem sabia onde, algum bolso de calça que não trouxe. Não pesar a mala, começar do zero, mesmo as roupas. Mesmo as que agora faziam falta?
E aquele desejo de escrever. Dizer não diretamente mas de uma forma diferente. Era preciso estar ali. Não sentia falta de quase nada da vida que tinha e deixou. Não fosse pelo conforto que a inércia da vida vai conduzindo a que tudo se torne mais fácil com o tempo. Mas era um fácil que se tornava difícil por sua própria facilidade.
Era um desejo mesmo ser outra coisa por meio do mesmo artificio que o constituíra, conforme aquilo que havia podido ser até então.
A primera vez que chegou à cidade, o colégio que não quis, a entrevista, passaste, vais perder esssa chance? Muitos são chamados poucos escolhidos. Fora escolhido. Esqueceste em minha sala uma Bíblia? Eu te mostro, deixa que eu te conduza.
Ele era agora o que nunca pudera. Alguém que de expectador eterno do espetáculo alheio passasse ao centro a própria encenação do que era aquela vida suposta que pode ser boa, num lugar escolhido que sabia bem porque escolhera, porque era o caos, mas também transpirava singeleza, nos nomes das ruas, nas referências antiquadas
Fazia-me falta sem nunca haver existido. Fi-lo existir como uma história que surgiu espontânea mas depois inventava, fazia graca. Perguntavam os detalhes, o nome da mãe, onde morava... Comia ovos feitos em frigideiras enormes.
Próximo do dia em que acordou e viu um carrinho de bombeiro sobre o móvel, era um móvel de gavetas grandes, com muitos objetos em cima, uma cômoda? O carrinho vermelho, o boneco de plástico urso amarelo acima, a mangueira branca enrolada feita um rolo. Estava ali, será ainda meu pela manhã, o almejado, vermelho, acordo, já não está, ajuda-me a procurar, nunca esteve ali? Busque nas caixas de sapato, dentro das gavetas, haveria ele de caber ali?
Os dois braços estendidos sobre a mesa da escola. Qual escolher. Qualquer dos lados marcariam um destino sem retorno. Dois caminhos. Não havia volta.
Agora, todos cumpriam um destino traçado, repetiam os pais, suas crenças, suas posições. Mesmo os que eram mais rebeldes, se surpreendia a que ponto de conformidade havia chegado. Aquela colega que rira descontroladamente enquanto ele tentava esconder o rasgo no pano, com a mão esquerda levantada a frente apoiada na barriga. Cantava. A outra ria.
A incerteza. O certo é que não podia mais. Não aquela cidade, não aquela vida. Morreria. O interesse se perderá, não havia lugar que desejasse ir ou comida que imaginasse. Podia tudo e não queria nada, podia tudo dentro do que constituiu como possível.
Hoje chegou atrasado, mostrou as meias como de praxe. Música ensaiada, letra decorada, podia ter sido outra, estava melhor, mas a sua não ofendia, estava ao gosto do mês das vocações. Era mais fácil, repetia o refrão sem olhar ao redor. A mão sobre a barriga que era grande, não se via os pés no banho, deram-lhe um apelido.
Ali ninguém o conhecia e era esse o propósito. Uma vida nova. Que fosse possível. Não pode, logo nas primeiras semanas precisou dos contatos que a amiga deixara, e ele nem sabia onde, algum bolso de calça que não trouxe. Não pesar a mala, começar do zero, mesmo as roupas. Mesmo as que agora faziam falta?
E aquele desejo de escrever. Dizer não diretamente mas de uma forma diferente. Era preciso estar ali. Não sentia falta de quase nada da vida que tinha e deixou. Não fosse pelo conforto que a inércia da vida vai conduzindo a que tudo se torne mais fácil com o tempo. Mas era um fácil que se tornava difícil por sua própria facilidade.
Era um desejo mesmo ser outra coisa por meio do mesmo artificio que o constituíra, conforme aquilo que havia podido ser até então.
A primera vez que chegou à cidade, o colégio que não quis, a entrevista, passaste, vais perder esssa chance? Muitos são chamados poucos escolhidos. Fora escolhido. Esqueceste em minha sala uma Bíblia? Eu te mostro, deixa que eu te conduza.
Ele era agora o que nunca pudera. Alguém que de expectador eterno do espetáculo alheio passasse ao centro a própria encenação do que era aquela vida suposta que pode ser boa, num lugar escolhido que sabia bem porque escolhera, porque era o caos, mas também transpirava singeleza, nos nomes das ruas, nas referências antiquadas
Fazia-me falta sem nunca haver existido. Fi-lo existir como uma história que surgiu espontânea mas depois inventava, fazia graca. Perguntavam os detalhes, o nome da mãe, onde morava... Comia ovos feitos em frigideiras enormes.
Próximo do dia em que acordou e viu um carrinho de bombeiro sobre o móvel, era um móvel de gavetas grandes, com muitos objetos em cima, uma cômoda? O carrinho vermelho, o boneco de plástico urso amarelo acima, a mangueira branca enrolada feita um rolo. Estava ali, será ainda meu pela manhã, o almejado, vermelho, acordo, já não está, ajuda-me a procurar, nunca esteve ali? Busque nas caixas de sapato, dentro das gavetas, haveria ele de caber ali?
Os dois braços estendidos sobre a mesa da escola. Qual escolher. Qualquer dos lados marcariam um destino sem retorno. Dois caminhos. Não havia volta.
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