Essas lágrimas que passaram a brotar sem limites, em qualquer lugar, em qualquer situação, ainda que eu não estivesse emotivo me levavam a perceber a tristeza, a beleza ou a de cada momento do meu dia me causando um tremor por dentro e um estado de sensibilidade quase contínuo. Parecia que eu não poderia viver assim muito tempo, passei a ter dúvidas loucas que nunca me ocorriam, como se a lágrima tinha gosto diferente se era de alegria ou melancolia, se era capaz de corroer o mais duro metal tanto mais intenso o sentimento que a gerasse. Não eram choros, eram sentidos, sentimentos, contidos, de quase se tocar. Transbordamentos suaves, imperceptíveis. Vento em deserto. Brisa em alto mar. Lágrimas derramando-se como lava. Passei uma década com esse tremor, essa tormenta de serenos. A umedecer continuamente cada experiência. A
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Mostrando postagens de setembro, 2015
terra natal
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As pessoas conhecidas com quem nunca falei, sequer sabia o nome. A praça que era enorme e cheia de esconderijos. Havia muito mais mistério, quintais e lotes vagos. Pouco restou do lugar em que cresci. Cada falha nas calçadas guardava um pouquinho do meu afeto, um pular de pisada, um pique inventado.
Ela trouxe a Pietá
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Ela foi à Itália E trouxe uma Pietá. Dentre tudo o que viu - Davids imponentes, Pinocchios, rosários, Calendários de papas - Foi o que ela trouxe. Aquela imagem inclinada em compaixão. Obra dita por si. Numa miniatura rudimentar. Um pedaço de pedra branca Sobre um pedestal negro Com inscrição em latim. Entretanto, como poderia a mulher Se compadecer daquele Que haveria de salvar sua alma? Ela me trouxe a piedade Daquela estrela-do-mar Colhida triunfante de um fundo De areia numa tarde de sol Levada à casa como um troféu Que no retorcer-se o cair da noite Em remorsos me lembrou Que ali havia uma vida. Levou-me ao mar para devolvê-la E consolava-me dizendo do mal Que fazemos sem querer Nossos próprios passos Esmagavam formigas Sem mesmo perceber. Estava ao meu lado Até que eu vencesse O medo e a covardia. Atirando-me à água fria. A devolver a estrela De onde foi tirada. A salvação daquelas almas.
Última ilusão
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Meu último rastro de algum sentimento Sigo tentando escapar deste vácuo deixado por sua passagem Em tudo o que faço desde então falta teu nome Esta gravidade imensa que atrai tudo para si Buraco negro Revelando-me minha nudez Melancolia de salvar meus dias A julgar que só havia um motivo Para esta imensa tristeza. Expondo de uma vez tudo Que sempre foi Falta em mim Essa melancolia que salvava os meus dias quando eu julgava que só havia um motivo Naquela viagem para salvador, a forma como eu me referia a vc, um Depois de vc tudo o que fiz trazia a falta do seu nome Todos os esforços vãos de tornar a ter a felicidade de um dia As noites sem sono de cama fria
Descaminho
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Eu era só um menino. Com os braços estendidos sobre a mesa da escola, absorto em mim mesmo, imaginando que fossem estradas por onde minha vida seguiria, via aqueles dois caminhos à frente e sabia que só podia escolher um deles. E que isso determinaria todo o meu futuro. Apenas duas opções e eu sempre carreguei a impressão de ter escolhido o lado errado. As mesas quadradas tinham ao centro um pote de iogurte emborcado onde estava colada a figura de um personagem dos quadrinhos. Eu demorei a aceitar estar ali. Contam-me que eu preferia a sala ao lado da professora velha e severa que ensinava às crianças mais crescidas como juntar as sílabas. Mas concordei depois de algum tempo em estar ali, talvez o primeiro ato de conformidade, o adestramento da minha rebeldia, caminho seguro por que segui durante muitos anos, até novamente rebelar-me e encontrar-me até agora desnorteado, sem ter por onde seguir. Agora eu estava ali, num dos lados daquele quadrado, em torno dos quais a cada lado havia...
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Seria um mero detalhe. Mas era um encontro. Um homem e uma mulher. A melhor se conhecerem. Vendo-se pela segunda vez. Tudo ia bem. Conversaram. Dividiram elogios. Fizeram seus pedidos. Comentários sobre outros fregueses. Jantaram. E sobrou aquele pedaço de uma folha verde nos dentes dela. Tudo então se transformou. Pensou em dizer-lhe. Mas o que seria melhor? O que causaria o menor constrangimento? Podia simplesmente dizer, naturalmente. Mas pensava no efeito que essas palavras teriam. Tinha tudo para ser um encontro perfeito. Mas teve aquela folha de alface no dente dela. Causou a melhor impressão possível, mas quem diria que um simples detalhe poderia ter semelhante efeito? Era a primeira vez