Descaminho
Eu era só um menino. Com os braços estendidos sobre a mesa da escola, absorto em mim mesmo, imaginando que fossem estradas por onde minha vida seguiria, via aqueles dois caminhos à frente e sabia que só podia escolher um deles. E que isso determinaria todo o meu futuro. Apenas duas opções e eu sempre carreguei a impressão de ter escolhido o lado errado.
As mesas quadradas tinham ao centro um pote de iogurte emborcado onde estava colada a figura de um personagem dos quadrinhos. Eu demorei a aceitar estar ali. Contam-me que eu preferia a sala ao lado da professora velha e severa que ensinava às crianças mais crescidas como juntar as sílabas. Mas concordei depois de algum tempo em estar ali, talvez o primeiro ato de conformidade, o adestramento da minha rebeldia, caminho seguro por que segui durante muitos anos, até novamente rebelar-me e encontrar-me até agora desnorteado, sem ter por onde seguir.
Agora eu estava ali, num dos lados daquele quadrado, em torno dos quais a cada lado havia um menino. Outros meninos que deixei para trás, eu deixei todos para trás, não somente os da mesa do Pelezinho, todos os outros, eu percebia a sua falta de profundidade, e eu mergulhava, como os peixes que eu adorava ver em qualquer poço d'água com que me deparava, como as figuras horrendas e abissais das enciclopédias que eu passava o dia a folhear. Era minha atividade preferida. Havia na sala de casa aquela grande estante de madeira escura, com coleções coloridas de livros misteriosos.
As mesas quadradas tinham ao centro um pote de iogurte emborcado onde estava colada a figura de um personagem dos quadrinhos. Eu demorei a aceitar estar ali. Contam-me que eu preferia a sala ao lado da professora velha e severa que ensinava às crianças mais crescidas como juntar as sílabas. Mas concordei depois de algum tempo em estar ali, talvez o primeiro ato de conformidade, o adestramento da minha rebeldia, caminho seguro por que segui durante muitos anos, até novamente rebelar-me e encontrar-me até agora desnorteado, sem ter por onde seguir.
Agora eu estava ali, num dos lados daquele quadrado, em torno dos quais a cada lado havia um menino. Outros meninos que deixei para trás, eu deixei todos para trás, não somente os da mesa do Pelezinho, todos os outros, eu percebia a sua falta de profundidade, e eu mergulhava, como os peixes que eu adorava ver em qualquer poço d'água com que me deparava, como as figuras horrendas e abissais das enciclopédias que eu passava o dia a folhear. Era minha atividade preferida. Havia na sala de casa aquela grande estante de madeira escura, com coleções coloridas de livros misteriosos.
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