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Mostrando postagens de junho, 2016
Meu maior espanto é que toda a sabedoria acumulada nesses mais de milênios de civilização não impede que os homens se destruam
Descobri muito tarde, a duras penas que não sou homem de ciência Sou do coração O mesmo que sempre vai me matar um dia
Em raros encontrava aquele dom de supor que seria capaz de fazê-lo feliz de estar pleno de um simples olhar para si.
Sonho um ritual religioso, uma orgia Em que se engole o vidro picado do pecado. Eu tinha uma sede insaciável Litros d'água não me saciavam

Revoluções

Já me arrependi por guardar no coração Por muito tempo revoluções Que vieram depois sem minha participação.

Regular guy

Um tipo comum. Médio. Passaria como feio entre feios, como lindo entre lindos. No meio dos pobres, se confundiria facilmente entre eles e passando com ricos, poderiam facilmente apontar nele a empáfia própria dos poderosos.

Dois braços estendidos sobre a mesa (da escola)

Aqueles dois braços estendidos à sua frente definiriam desde ali seu destino. Mas quem pode dizer que o outro seria melhor?

Esse meio sorriso

Esse meio sorriso que te sai quando te abraço Um visgo de satisfação no canto do lábio Inunda meu coração de ternura.

O livro das respostas fantásticas às perguntas das crianças

O fosso da memória

Estou nesses dias de ter que sair e chorar muitas e muitas vezes Esta encenação terrível do que foi até aqui minha vida Vestir disfarces, dar as mãos à morte Descer ao fosso cavado em algum quintal da infância Ver destruir-te o que tens de mais valioso Na inépcia de respirar à superfície Era uma criança capaz de segredos, de não deixar nunca vestígios, dissimulava os malfeitos e sentia-se culpada porque nunca se lhe poderia atribuir aqueles maus pensamentos. Ela tinha esse poder. Muito cedo, desde. Também a presença não marcava. Não tive escolha. A consciência muito precoce da minha completa inadequação ao mundo, o fracasso de todos os esforços em me fazer mais ajustável e produtivo não me deram outra chance que não assumir minha condição de Estrangeiro no mundo, da posição deslocada e da minha incomunicabilidade pelas vias normais e institucionalmente mais aceitas. Ser poeta seria uma boa desforra. Viver de brincar com palavras, brincar de levá-las tão a sério. Oxalá rea...

Diário de uma queda

Não, não é um jardim Que estão a construir naquele canteiro Mais uma vez me enganei Que ingênuo tenho sido! Hoje vi plantarem ali Um bloco do mais duro concreto O triunfo definitivo das arestas Dos ângulos retos, os retângulos Sobre a matemática complexa E amorosa dos círculos Florescerão cédulas Deste viaduto, autos moverão - Álcoois gel nos apertos de mão Os apertos nos coletivos O ferro desabado sobre as pernas - Este mesmo de que me atiro

Homem-Bomba

Quisera entregar minha vida por acreditar Não por descrer.

Viagem

Preciso ir, para fingir, para manter a ilusão de que não estamos aprisionados nessa vida que criamos e acreditar em alguma liberdade. Para ter de volta as sensações do iniciante que descobre a própria existência no mundo que o cerca. Para desarmar-nos destes confortos que nos mantém impassíveis e aimanam as sensações. Causar essas desordens. Por causa dessas saudades antecipadas que fazem bem quando pensam mal.

Espécies de penas

No título do livro do jovem sentado ao meu lado no ônibus Leio espécies de penas E me pergunto se é do Direito ou da Biologia Dos crimes da natureza ou das penas da vida Das leis da selva ou da compaixão.

Anacrônico

Um perene embaraço de iniciante E um delay para acomodar os acontecimentos E além de tudo isso Um anacrônico irremediável.

Achados e Perdidos

Viu o anúncio sobre a existência da sessão de Achados e Perdidos.  Foi procurar algum objeto que porventura  lhe houvesse desaparecido Sem dar-se conta de sua ausência.
Não, não quero que me diga mais nada sobre ti... Sei que depois à noite vais cismar, despertar do sono e remoer os fatos, arrependido por ter te exposto tanto. E quando eu te deixar, vais pensar que foi por isso, questionarás se não foi pelo tanto que te disseste.

(O nome deste livro)

Estava na biblioteca lendo o livro "(O nome deste livro)" e achou que ali havia muito de si.
Minha mãe disse-me que eu escrevesse. Um livro. Não sei se foi um pedido, se foi um conselho. Ou uma ordem. Disse-me assim: - Devias escrever um livro. Calei-me. Depois disse que sim, que algum dia. Há palavras demais. Ver tanta coisa escrita me desespera. Tenho cheia a estante e não me cessam de chegar livros, textos, revistas, jornais. É uma asfixia de toda minha possibilidade de escrever. Não me lançaria a contribuir para esse excesso se não tivesse algo realmente relevante a dizer. Entretanto, já o fiz. Acabo de fazê-lo. Se foi ordem, comecei a cumpri-la. E já me sinto culpado por ter fornecido à alguém um pouco mais de palavras com que intoxicar-se. Talvez porque ela saiba que a mim importam coisas que importam a pouca gente. A quem importa minha aflição sob os escombros daquele edifício monstruoso que erigiram sem minha permissão?
Antes podia ser qualquer lugar. O terreno do vizinho me servia bem, guardavam laranjas sorridentes e as lembranças da primeira desilusão da infância. Tudo mudou após o primeiro encontro em que me reconheci nas pedras das calçadas. Teve o passeio com Pessoa em que descobri que era chique ser do Chiado. Depois vieram as janelas verdes dos Maias, a morte de Luisa. Vou em busca da cura de Herberto Helder.