Meu maior espanto é que toda a sabedoria acumulada nesses mais de milênios de civilização não impede que os homens se destruam
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Mostrando postagens de junho, 2016
Dois braços estendidos sobre a mesa (da escola)
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O livro das respostas fantásticas às perguntas das crianças
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O fosso da memória
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Estou nesses dias de ter que sair e chorar muitas e muitas vezes Esta encenação terrível do que foi até aqui minha vida Vestir disfarces, dar as mãos à morte Descer ao fosso cavado em algum quintal da infância Ver destruir-te o que tens de mais valioso Na inépcia de respirar à superfície Era uma criança capaz de segredos, de não deixar nunca vestígios, dissimulava os malfeitos e sentia-se culpada porque nunca se lhe poderia atribuir aqueles maus pensamentos. Ela tinha esse poder. Muito cedo, desde. Também a presença não marcava. Não tive escolha. A consciência muito precoce da minha completa inadequação ao mundo, o fracasso de todos os esforços em me fazer mais ajustável e produtivo não me deram outra chance que não assumir minha condição de Estrangeiro no mundo, da posição deslocada e da minha incomunicabilidade pelas vias normais e institucionalmente mais aceitas. Ser poeta seria uma boa desforra. Viver de brincar com palavras, brincar de levá-las tão a sério. Oxalá rea...
Diário de uma queda
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Não, não é um jardim Que estão a construir naquele canteiro Mais uma vez me enganei Que ingênuo tenho sido! Hoje vi plantarem ali Um bloco do mais duro concreto O triunfo definitivo das arestas Dos ângulos retos, os retângulos Sobre a matemática complexa E amorosa dos círculos Florescerão cédulas Deste viaduto, autos moverão - Álcoois gel nos apertos de mão Os apertos nos coletivos O ferro desabado sobre as pernas - Este mesmo de que me atiro
Viagem
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Preciso ir, para fingir, para manter a ilusão de que não estamos aprisionados nessa vida que criamos e acreditar em alguma liberdade. Para ter de volta as sensações do iniciante que descobre a própria existência no mundo que o cerca. Para desarmar-nos destes confortos que nos mantém impassíveis e aimanam as sensações. Causar essas desordens. Por causa dessas saudades antecipadas que fazem bem quando pensam mal.
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Minha mãe disse-me que eu escrevesse. Um livro. Não sei se foi um pedido, se foi um conselho. Ou uma ordem. Disse-me assim: - Devias escrever um livro. Calei-me. Depois disse que sim, que algum dia. Há palavras demais. Ver tanta coisa escrita me desespera. Tenho cheia a estante e não me cessam de chegar livros, textos, revistas, jornais. É uma asfixia de toda minha possibilidade de escrever. Não me lançaria a contribuir para esse excesso se não tivesse algo realmente relevante a dizer. Entretanto, já o fiz. Acabo de fazê-lo. Se foi ordem, comecei a cumpri-la. E já me sinto culpado por ter fornecido à alguém um pouco mais de palavras com que intoxicar-se. Talvez porque ela saiba que a mim importam coisas que importam a pouca gente. A quem importa minha aflição sob os escombros daquele edifício monstruoso que erigiram sem minha permissão?
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Antes podia ser qualquer lugar. O terreno do vizinho me servia bem, guardavam laranjas sorridentes e as lembranças da primeira desilusão da infância. Tudo mudou após o primeiro encontro em que me reconheci nas pedras das calçadas. Teve o passeio com Pessoa em que descobri que era chique ser do Chiado. Depois vieram as janelas verdes dos Maias, a morte de Luisa. Vou em busca da cura de Herberto Helder.