O fosso da memória

Estou nesses dias de ter que sair e chorar muitas e muitas vezes
Esta encenação terrível do que foi até aqui minha vida
Vestir disfarces, dar as mãos à morte
Descer ao fosso cavado em algum quintal da infância
Ver destruir-te o que tens de mais valioso
Na inépcia de respirar à superfície

Era uma criança capaz de segredos, de não deixar nunca vestígios, dissimulava os malfeitos e sentia-se culpada porque nunca se lhe poderia atribuir aqueles maus pensamentos. Ela tinha esse poder. Muito cedo, desde. Também a presença não marcava.

Não tive escolha. A consciência muito precoce da minha completa inadequação ao mundo, o fracasso de todos os esforços em me fazer mais ajustável e produtivo não me deram outra chance que não assumir minha condição de Estrangeiro no mundo, da posição deslocada e da minha incomunicabilidade pelas vias normais e institucionalmente mais aceitas.

Ser poeta seria uma boa desforra.
Viver de brincar com palavras, brincar de levá-las tão a sério.

Oxalá realmente germinasse em mim agora algo de que me orgulharei e tomarei seu proveito. Eu diria que é até com violência, uma violência disfarçada qual a de uma semente.




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