Meu primeiro amor me levou para os jornais. Com foto na capa da página policial. Eu tinha 5 anos.

Era minha coleguinha da pré-escola. Já no início da vida escolar tive que lidar com agrurias da paixão. Sim, porque foi um amor cercado de cordialidade e dor, antecipando quase todos os outros que tive pela frente.
Fazia tudo por ela. Cedia os brinquedos, oferecia minha merenda. Os adultos não suspeitavam que aquilo fosse um amor. Achavam engraçadinho aquele menino cercando de cuidados a caçulinha da turma. Ela recebia os agrados com a indiferença de uma rainha.
Era rósea e tinha os cabelos claros, ralos e lisos. O corpo era roliço, com dobrinhas que já faltavam nas coleguinhas mais crescidas. Os olhos caiam no sono num segundo. Se não me engano, tirava uma soneca de vez em quando num colchão em algum canto da sala. E tinha uma particularidade: usava fraldas, ainda. Traço essencial de afeição. Era como a nostalgia de uma fase minha recentemente vencida.
Chamava-se Alice, tinha a mesma primeira letra do meu nome, que eu recentemente aprendera. Parecia o sonho da perfeição de uma parceria. Ela falava pouco, não me lembro de sua voz e nem se conversava comigo. Só o embevecimento, o fascínio. Mas nem tudo eram flores.
Corriam rumores de que não tinha pai. Enquanto babás e empregadas buscavam e traziam outras crianças, era sua própria mãe que a conduzia sempre pela mão. Uma forasteira apressada, de olhar tristonho, dava a impressão da própria Eva expulsa do paraíso. Sua presença parecia agredir involuntariamente a suavidade da filhinha.
O clima de apreensão me veio com o início dos ensaios para a festa junina da escola. Colocavam as crianças para dançar aos pares e eu me asfixiava de rancor quando a via de par com outros meninos. Sofria em silêncio. Afinal, o alívio, quando me comunicaram a decisão muito natural de que eu formaria com ela o casal mais meigo do baile.
No dia da festa, um revés. Como eu demorava, ela se cansava de perguntar se dançaria sozinha. A mãe tentava acalmá-la, prometendo outro par. Quando cheguei, estava emburrada, com boca em muxoxo e quase não se alegrou com minha aparição. Logo nos arrastaram para o meio do pátio, não sem que ela esboçasse um choro de recusa, facilmente vencido com a promessa de alguma prenda das barracas.
Foi um êxtase. Ela desajeitadamente de braços dados comigo rodando pelo salão com aqueles passinhos curtos, enquanto ao redor, a gente desconhecida aplaudia e incentivava. Discerni no meio da multidão sua mãe sorrindo pela primera vez. Eu plainava vitorioso quando não me atrapalhava com as bordas do seu vestido excessivamente rodado e comprido.
Viriam as férias e não me lembro se ainda voltei a vê-la depois daquele dia. Sei que ao retornarem as aulas, as expectativas de revê-la se converteram em minha primeira grande desilusão. Ninguém comentava nada, mas no domingo seguinte, no almoço de família, uma prima chegou à casa com a notícia. O pai que a recebera nas férias, tinha fugido com ela sem paradeiro. No jornal, ao lado da foto da mãe, o puro retrato da desolação, a imagem do meu dia triunfal: de perfil, em calça e blusa ustop azul xadrez, chapéu de palha, meu corpo só não lhe escondia a barra rosa do vestido e o rostinho redondo e pálido, sem qualquer expressão, que é como me lembro dela.

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