o irmão que eu não tive: memórias de uma ausência

Não tive, nunca terei.
Minha infância, e percebo cada vez mais, minha vida inteira, até hoje foi e é marcada por essa ausência.
Para que se entenda o que vou contar, é preciso conhecer um pouco da minha história. Nasci em 1976 em uma pequena cidade de 15 mil habitantes no sudeste de Minas Gerais, uma região chamada de zona da mata. Um vale onde já existiu uma faixa da mata atlântica, há muito desmatada, da qual não restam senão algumas ilhas de verde. Cercada de montanhas suaves, cortada por um rio que lhe dá o nome, minha cidade se esforça por ser
Meus pais, um casal jovem, muito querido da cidade. Meu pai, filho da cidade, de uma família pobre de quem ele foi o esteio desde que foi aprovado num concurso para o primeiro emprego. Minha mãe, filha de migrantes baianos, de melhor condição social cujo pai se suicidara um ano após meu nascimento. Eu tenho o nome desse avô.
Quando nasci, já tinham duas filhas. Naquela época não se conhecia o sexo do bebê antes de seu nascimento. Se eu fosse mulher, possivelmente me chamaria Amélia, nome adorado por meu pai por causa da velha canção que falava da "mulher de verdade" mas que tinha sido recusado por minha mãe ao nascimento das minhas irmãs.
Vinda da Marizete.
Sentimento de antecipada aceitação e segurança
Inventei-o. Ele se chamava Roberto, não era filho da minha mãe, morava no bairro mais popular da cidade, longe da minha casa. Era o meu irmão. Sua mãe fritava ovos em frigideiras enormes. Durante alguns meses preguei a mim mesmo essa mentira, um irmão com nome, endereço, com o qual eu despertava interesse e risos nos adultos. Algum horror, talvez, aos meus pais.
Ele, sua ausência, é o nome da minha solidão sem fim, que não encontra presença em ninguém, sempre a buscar a companhia em algum outro lugar. Eu era Avulso. O meu primeiro melhor amigo, arrancado de mim em tão pouco tempo,
Em nome dele, a escolha de um par se torna essa tarefa quase impossível a mim.
O homem que eu amei tinha a promessa de sê-lo. Talvez isso explique o excessivo apego, o apelo quase irresistível de sua presença. Algo que eu custei a entender, porque não foi em nada o homem mais interessante ou talentoso eu conheci. Mas trazia em sua imagem a marca de um reconhecimento.
Alguns amigos tinham seu irmão mais velho e eu via neles uma segurança que eu não tinha.
Ele me resgataria de toda a falta de jeito, desse sentimento de inadequação com que sempre experimentei minha relação com o mundo. Ele dissiparia para sempre a minha curiosidade sobre o mundo dos homens, sobre os mistérios desse corpo que o meu próprio era incapaz de esclarecer.

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