CAIANAS
"EU NÃO DEVIA TE DIZER
MAS ESSA LUA
MAS ESSE CONHAQUE
BOTAM A GENTE COMOVIDO COMO O DIABO." (C. D.
Andrade)
É tão cedo, você foi se deitar. Nem te disse boa noite e agora
estou aqui, puxando sua coberta para que você não sinta frio, mas você atira
longe, é sempre assim, você acorda descoberto da minha insistência.
Depois de tanto tempo ainda não conheço seus hábitos, quando está
cansado e não quer conversar. Nunca sei. Então começo a falar coisas para
preencher esse espaço que entre nós é do silêncio. Você o tolera muito mais.
Não é assim que você disse, que não sei ouvir meu silêncio interior? Acho que
tem razão. Você sabe muito de quase tudo. E de mim, parece saber tudo. E eu,
por outro lado; eu não sei quase nada de você, e já faz tanto tempo.
Hoje dei volta do meu caminho e passei perto da sua porta, a ver
se te encontrava por acaso. Você distraído e eu acenando para você notar. Tudo
o que eu queria dizer naquela hora é que, para quem ama, a felicidade é muito
simples. Tantas vezes bastava um gesto pequeno seu para que meu dia, minha
semana e daí por diante, minha vida mudasse. Como aquela frase da missa:
-"Dizei uma palavra e serei salvo". Você dizia que amar é muito
patético e eu nunca concordei, patético que sou.
M
Sim, estou te atrapalhando a dormir, você sempre diz, "são
conversas que não levam a nada". Quando deita cedo, fico pensando em como
seria minha vida agora sem você; às vezes é tão fácil, noutras penso que
morreria, se um dia recebesse um telefonema dizendo que você foi atropelado. Ou
se te encontrasse morto no banho; eu seria o próximo a ter um ataque. Mas hoje
é diferente, pensei algo novo.
A novidade é que dessa vez eu é que morri. Há algum tempo eu já
deixei de viver, mas agora sim, me senti morto. A vida mata devagar, é uma
crueldade isso, vai mutilando, arrancando pedaços, uma lapidação que produz uma
joia sem nenhum valor, que volta à terra depois. Mas às vezes se morre de uma vez,
e hoje foi assim; subitamente já não estou aqui, senti minha ausência na sua
vida mais do que a sua na minha.
Não, não tinha que ser agora. Podia mesmo, podia ser depois. Já é
madrugada. Sei que poderia te dizer isso em outro momento. Mas hoje foi um dia
chuvoso; e houve um acidente com dezenas de vítimas. Ao deitar, sua cama estava
fria; escutei de novo sua voz quando me dizia para não me deixar de novo ser
atropelado por essas preocupações sem sentido. Que não te deixasse mais uma
vez, que tudo o mais do mundo ficasse de fora. Agora, que eu não tenho mais
quem diga, ela me perturba, não me deixa dormir.
Eu sei que não é uma boa hora. Mas entenda que é para permitir meu
sono que perturbo o seu. Já devia estar dormindo. É que as coisas se inverteram
desde quando eu acordava no meio da noite e te via de olhos abertos. Agora, sou
eu que não obedeço. Trago além daquelas preocupações, essa ausência em vozes e
tremores. Não sinto sua falta, a não ser nessa frustração ruidosa de não
ter sido o que poderia, e de não fazer o tudo que agora me é permitido.
Ok, já vou me calar. No fim das contas, é sempre assim, faço tudo
o que você quer, mesmo sem dizer. Mas dessa vez você vai se surpreender. Não,
não é nenhuma besteira que vou fazer. Nada de mim. Você é que vai acordar
amanhã com frio, vai me ver coberto, de olhos fechados, e vai entender que a
vida, na verdade, é o que se passa nos meus sonhos. E que a realidade do dia é
a sua ilusão. Vai querer voltar a dormir e não haverá o dia que te espera. Talvez
eu ainda esteja dormindo. Tomara que sonhe... Estamos juntos.
Comentários
Postar um comentário