Silenciar

Quando tudo o que eu teria era um grito
Era viver a vida, só isso, e ele achava muito
Seguir pensando que tantos têm seus motivos
Ele não
Quem o vê passar não imagina
O seu problema algum.
Todos os problemas do mundo eram seus
E não havia como escapar.


Há os que têm todos os motivos para ser infelizes
E não são

Outra vida, outro fim
Outra vida, enfim.

Basta fingir que é possível
Deixar para trás
Esquecer, ainda agora
A próxima viagem
Como seria a outra vida?
O próximo destino.

Mas há tempos ele não tem sossego
É a página mal escrita,
A leitura pela metade;
Ele já não era todo.
Deixou de ser quem era
E não se fez outro.

Seu corpo some daqui para baixo
Ele não nota
As ideias já não são suas
Como ele, também não
De ninguém.

Observa a vida dos outros,
Ele descrê.
Crianças nascem,
Ele desdenha.
Painéis se multiplicam,
Mas nenhum.
Haveria ordem, uma maneira de recomeçar?

Ele decide então morrer
Até amanhã.
Começar de novo
De onde nunca parou.

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