Porque sinto em mim o mesmo desejo impulso que teve o primeiro homem que abandonou as tarefas da sobreviver para as da existência, talhou a pedra pintou o muro pela primeira vez e como ele faltam-me recursos, talvez tenha hesitado muitas vezes na falta da palavra, do movimento, da matéria prima mas se estava estrangulado por dentro, abafado por vieses interiores terríveis que o afastavam dessa vida de osso e carne e colocava-o diante do assombro, as reminiscências da morte tantas vezes testemunhada, não sabe não pode não consegue ligar os pontos, as sílabas, não sossega entretanto sente o desassossego dentro de si. Essa palavra condenada.

Sinto que é preciso parar, deixar à parte o fluxo incessante do mundo para voltar às minhas próprias experiências e refleti-las dizê-las reinventa-las. Estou farto de ser um simples expectador da vida que enceno. Quero aumentar minha participação nessa autoria.
Dediquei-me a estudar e conhecer diferentes coisas, o que não me faz autoridade em nada, é um conhecimento impossível de acumular num saco e exibir como conquista. Faz tempo que não experimento qualquer deslumbramento como aqueles da época em que comecei a frequentar o cine usina e o belas artes, aqueles filmes, tão diferentes tão cheios de verdade e sonho.

Era uma época plena de descobertas. Era toda uma cidade que se descortinava para mim, Belo Horizonte, a síntese, as raízes e a modernidade, o atraso e a vanguarda, uma cidade de onde se avista o fim naquela serra. Caminhar pela cidade era conquistá-la, tê-la aos meus pés, saber dos segredos daquela geometria tão previsível nos mapas, tão acidentada e tão caótica no percorrer. Sobretudo andava com amigo, era outra descoberta, alguém que conhecia mais que eu, que me apresentava aquilo que eu mesmo sempre supunha saber.


Aquilo nunca se repetiu, mesmo quando hoje descubro outra cidade ainda mais instigante e cheia de história, não há, nunca haverá o gosto da descoberta primeira. Porque também o primeiro amor é o único amor e o primeiro melhor amigo será sempre o melhor.

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