Kiwi
Na minha infância comiam-se bananas, laranjas, abacaxis. Em seu tempo, as outras frutas, mangas, eugenias, jabuticabas e goiabas. Os caquis enchiam de doçura os abris, que duravam mais de um mês quando se prolongavam em caixas dispostos à meia-dúzia. Uvas e pêras havia amiúde nas feiras, mas eram quase um luxo, reservado aos fins de semana. Morangos, uma extravagância rara nos invernos. As maçãs lembram febres, que delas me davam o direito da polpa servida raspada em colheradas de afeto materno.
Não existiam kiwis. De um momento para o outro foi descoberta a fruta da pele áspera prendedora de línguas, da carne elíptica verde ácida de beleza plástica, de lascas fatias dispostas em leque em torno do centro bege e doce, a crepitar sementes nos incisivos em pontos negros de girino amontoados. Não sei ao certo quando apareceram, mas causa-me estranheza a naturalidade com que foram deixando de ser uma novidade exótica em belos arranjos. Fazem parte do cotidiano e ora se exibem opacos lado a lado daquelas velhas frutas nossas conhecidas nas bancas das feiras ou me surpreendem ao limite abertos nas embalagens de iogurte nos frigoríficos.
É uma sem cerimônia que me deixa atônito de revolta. Ainda mais quando agora vejo pitangas e nêsperas vendidas como se fossem raridades, frutas que já colhi do pé dos quintais das casas das avós. Pois, alguém já esteve ao vivo diante de um pé de kiwi? Que nome teria o kiwizeiro? Ou se eles existem tantos quantos presumíveis os frutos?
Desconfio que sejam produzidos em série em fábricas de mão de obra barata no sudeste asiático e distribuídas ao lado de tecidos e aparelhos eletrônicos neste lubridio que nos faz pensar que sejam fruta como qualquer outra. Pois que outra explicação para uma mudança tão drástica na ordem do meu mundo?
Não existiam kiwis. De um momento para o outro foi descoberta a fruta da pele áspera prendedora de línguas, da carne elíptica verde ácida de beleza plástica, de lascas fatias dispostas em leque em torno do centro bege e doce, a crepitar sementes nos incisivos em pontos negros de girino amontoados. Não sei ao certo quando apareceram, mas causa-me estranheza a naturalidade com que foram deixando de ser uma novidade exótica em belos arranjos. Fazem parte do cotidiano e ora se exibem opacos lado a lado daquelas velhas frutas nossas conhecidas nas bancas das feiras ou me surpreendem ao limite abertos nas embalagens de iogurte nos frigoríficos.
É uma sem cerimônia que me deixa atônito de revolta. Ainda mais quando agora vejo pitangas e nêsperas vendidas como se fossem raridades, frutas que já colhi do pé dos quintais das casas das avós. Pois, alguém já esteve ao vivo diante de um pé de kiwi? Que nome teria o kiwizeiro? Ou se eles existem tantos quantos presumíveis os frutos?
Desconfio que sejam produzidos em série em fábricas de mão de obra barata no sudeste asiático e distribuídas ao lado de tecidos e aparelhos eletrônicos neste lubridio que nos faz pensar que sejam fruta como qualquer outra. Pois que outra explicação para uma mudança tão drástica na ordem do meu mundo?
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