A Ana C. e Caio F. Abreu

Vejo vossos rostos, tão jovens! A glória de morrer antes do fim. Antes que o passar dos anos conforme a falta de inspiração, a repetição. Não entendo como pudestes me desvendar enquanto minha alma ainda germinava. Fui nutrido do húmus em que vos transformastes, talvez isso explique alguma coisa, porque sou traduzido nas vossas palavras, do mesmo modo como quis ser um personagem do teu texto numa peça que assisti por tua causa. Ou porque meu nome reproduz a mesma história da vossa tragédia, do desenlace final, no temor de despencar de meu próprio nome que carregais e de que caístes. Ad infinitum. Dessa pedra que rola cor de rosa morro abaixo e me arrasta. Ad eternum. Ou porque meu personagem viveu vossa vida algumas vezes, no desespero do desejo e do proibido que é chaga do perigo que aproxima o prazer e a morte. Sinto-me condenado à eternidade da qual vos livrastes, e acorrentado àquela que vos consagrou, agente passivo nunca ativo de uma existência fictícia que não é a que almejei.

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