Era a morte ao reves, era a faca o fio o corte lento da corda tesa, sonhei que sonhavas comigo me dedicavas ternas palavras de amor, eu dormia eu estava já morto, uma sombra cobria a parte do meu rosto que descobriste, era antes mesmo do meu nascimento e eu sonhava com ela depois da minha morte, era seu luto que eu visitava consternado mais por ti que por mim.
Estava distante, não podias alcançar-me. Do mesmo modo que a vida, inatingível nesta mesma presença, eu caminhava por uma senda escura, inteiramente só, enquanto me espreitavas do parapeito ao alto a prescrustar-me os passos e já era eu a equilibrar-me sobre o arame, a plateia em pleno aplaudir cada salto, eu a divisar seu rosto na multidão na trajetória da queda.
No mesmo salto já não era eu e tu já não estavas, havia um silêncio, logo surgia uma ave lenta, já não era um pássaro, mas uma seda que pousava no chão de onde saías em movimentos de odalisca, girando um sabre prateado reluzente em cujo reflexo me vi como da primeira vez, completamente rendido enrodilhado ante tua presença vitoriosa, pronto a ser abatido. Mas antes que caísse sobre mim, tua espada se espatifou em milhares que cobriram-me como um manto que me vestia quando me levantei à sua procura. Era um aposento real em cujo trono havia uma máquina, era ela, uma sereia de latão coroada, um ciborgue meio mulher, ao lado uma fila de corpos nus sobre um cadafalso, ao fim do qual estavam as armas escuras daquele cavaleiro, cujo rosto de metal era o meu.
Ela mirava com aquelas luzes de ternura e dor que só pode ter a mãe pelo seu filho morto. Era a morte ao reves, era o fio o corte da corda tesa, em valsa lenta, sonhei que sonhavas comigo, seguias minha queda por uma senda reluzente. Daquela esquina o nome do duque o tempo suspendestes numa lenta descoberta, a desmemória do instante em que descortinado tu me vias e não era fácil desprender-me, retomaste então o velho sonho de só poder existir depois da morte, sabia que devias nascer para atravessar. Eu vi um vão e não pude seguir, haviam vozes, veludos, detive-me e despertei assombrado diante do precipício, do princípio lento destes penhascos, de que se dá à escuridão em berço, a vida que fosse sempre a repetição do último instante, que é o único que se sente, que se define e nunca se conclui. Tive um sonho e aquilo com que sonhei já estava irremediavelmente perdido. Eu vi um vão e atravessei-o.
Estava distante, não podias alcançar-me. Do mesmo modo que a vida, inatingível nesta mesma presença, eu caminhava por uma senda escura, inteiramente só, enquanto me espreitavas do parapeito ao alto a prescrustar-me os passos e já era eu a equilibrar-me sobre o arame, a plateia em pleno aplaudir cada salto, eu a divisar seu rosto na multidão na trajetória da queda.
No mesmo salto já não era eu e tu já não estavas, havia um silêncio, logo surgia uma ave lenta, já não era um pássaro, mas uma seda que pousava no chão de onde saías em movimentos de odalisca, girando um sabre prateado reluzente em cujo reflexo me vi como da primeira vez, completamente rendido enrodilhado ante tua presença vitoriosa, pronto a ser abatido. Mas antes que caísse sobre mim, tua espada se espatifou em milhares que cobriram-me como um manto que me vestia quando me levantei à sua procura. Era um aposento real em cujo trono havia uma máquina, era ela, uma sereia de latão coroada, um ciborgue meio mulher, ao lado uma fila de corpos nus sobre um cadafalso, ao fim do qual estavam as armas escuras daquele cavaleiro, cujo rosto de metal era o meu.
Ela mirava com aquelas luzes de ternura e dor que só pode ter a mãe pelo seu filho morto. Era a morte ao reves, era o fio o corte da corda tesa, em valsa lenta, sonhei que sonhavas comigo, seguias minha queda por uma senda reluzente. Daquela esquina o nome do duque o tempo suspendestes numa lenta descoberta, a desmemória do instante em que descortinado tu me vias e não era fácil desprender-me, retomaste então o velho sonho de só poder existir depois da morte, sabia que devias nascer para atravessar. Eu vi um vão e não pude seguir, haviam vozes, veludos, detive-me e despertei assombrado diante do precipício, do princípio lento destes penhascos, de que se dá à escuridão em berço, a vida que fosse sempre a repetição do último instante, que é o único que se sente, que se define e nunca se conclui. Tive um sonho e aquilo com que sonhei já estava irremediavelmente perdido. Eu vi um vão e atravessei-o.
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