Falar pelos cotovelos, tudo o que não se deve dizer, falar enquanto se faz o contrário do que se diz, até babar, até estourar meus pobres miolos, ela falava, me constrangia, contava meus fracassos, se vangloriava das minhas vitórias, meus míseros sucessos, nem sabia como conseguia ser tão fluente, uma frase emendada na outra, um assunto que puxava outro, vocês deviam dar mais descontos, ela aprendeu a pedir comigo, pobre de mim, dava valor demais ao dinheiro, que foi feito mesmo para gastar, se sente velho demais, quem me dera voltar a ter sua idade para poder me vestir de forma mais jovial; ela dizia isso com uma blusa decotada nas costas, com brilhos e fendas na borda do colo, enquanto levava outras blusas, foram quatro no total; não, não sou consumista, não compro por impulso, só o que eu preciso, e a moça sorria simpática.
Ele agora dobra uma esquina. Daqui a pouco chega em casa, tira o uniforme para evitar o castigo. Faz os deveres antes de sair. Segue com a camisa branca, com um rasgo embaixo. A mesma que usou na apresentação da escola. No palco, tentava esconder Agora, todos cumpriam um destino traçado, repetiam os pais, suas crenças, suas posições. Mesmo os que eram mais rebeldes, se surpreendia a que ponto de conformidade havia chegado. Aquela colega que rira descontroladamente enquanto ele tentava esconder o rasgo no pano, com a mão esquerda levantada a frente apoiada na barriga. Cantava. A outra ria. A incerteza. O certo é que não podia mais. Não aquela cidade, não aquela vida. Morreria. O interesse se perderá, não havia lugar que desejasse ir ou comida que imaginasse. Podia tudo e não queria nada, podia tudo dentro do que constituiu como possível. Hoje chegou atrasado, mostrou as meias como de praxe. Música ensaiada, letra decorada, podia ter sido outra, estava melhor, mas a sua não ofendia, e...
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