Não sei se é comum a todos os homens, mas me preocupo sobre como será a minha morte, como serão os últimos momentos, se terei a consciência de que tudo para mim se encerra. Há coisas que temo mais que outras, a carne abrasada em fogo, o salto de uma altura de segundos de agonia, a aflição da asfixia enquanto vejo passar pelos olhos o filme da minha pobre vida em desenredos. Temo o sofrimento prolongado, a dependência, o encarceramento de não poder escolher. Porque uma das coisas que mais me alivia a vida é ter a liberdade de escolher se quero ou não morrer. Aflijo-me com a patética situação da arma na cabeça, da tortura prolongada por um perverso sem alma, o horror da decapitação ou do castigo que me tiraria todos os movimentos. Imagino como mais provável uma dor no peito ou a súbita explosão de algo dentro, causando em mim a queda como os prédios implodidos. Alenta-me a ideia do casal amante morto no torpor inconsciente da emissão de um aquecedor numa idílica pousada na montanha. Uma tragédia pessoal sem outras vítimas, era tudo o que eu queria. Sem choros, sem remorsos, sem homenagens hipócritas. Como desfazer-me no ar e ser para sempre esquecido na difusão do tempo. Como a aeronave para sempre desaparecida. Era a morte que eu escolheria.

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