Não sei se é comum a todos os homens, mas me preocupo sobre como será a
minha morte, como serão os últimos momentos, se terei a consciência
de que tudo para mim se encerra. Há coisas que temo mais que outras,
a carne abrasada em fogo, o salto de uma altura de segundos de
agonia, a aflição da asfixia enquanto vejo passar pelos olhos o
filme da minha pobre vida em desenredos. Temo o sofrimento
prolongado, a dependência, o encarceramento de não poder escolher.
Porque uma das coisas que mais me alivia a vida é ter a liberdade de
escolher se quero ou não morrer. Aflijo-me com a patética situação
da arma na cabeça, da tortura prolongada por um perverso sem alma, o
horror da decapitação ou do castigo que me tiraria todos os
movimentos. Imagino como mais provável uma dor no peito ou a súbita
explosão de algo dentro, causando em mim a queda como os prédios
implodidos. Alenta-me a ideia do casal amante morto no torpor
inconsciente da emissão de um aquecedor numa idílica pousada na
montanha. Uma tragédia pessoal sem outras vítimas, era tudo o que
eu queria. Sem choros, sem remorsos, sem homenagens hipócritas. Como
desfazer-me no ar e ser para sempre esquecido na difusão do tempo.
Como a aeronave para sempre desaparecida. Era a morte que eu
escolheria.
Ele agora dobra uma esquina. Daqui a pouco chega em casa, tira o uniforme para evitar o castigo. Faz os deveres antes de sair. Segue com a camisa branca, com um rasgo embaixo. A mesma que usou na apresentação da escola. No palco, tentava esconder Agora, todos cumpriam um destino traçado, repetiam os pais, suas crenças, suas posições. Mesmo os que eram mais rebeldes, se surpreendia a que ponto de conformidade havia chegado. Aquela colega que rira descontroladamente enquanto ele tentava esconder o rasgo no pano, com a mão esquerda levantada a frente apoiada na barriga. Cantava. A outra ria. A incerteza. O certo é que não podia mais. Não aquela cidade, não aquela vida. Morreria. O interesse se perderá, não havia lugar que desejasse ir ou comida que imaginasse. Podia tudo e não queria nada, podia tudo dentro do que constituiu como possível. Hoje chegou atrasado, mostrou as meias como de praxe. Música ensaiada, letra decorada, podia ter sido outra, estava melhor, mas a sua não ofendia, e...
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