Quando cursava o antigo pré-primário, a escolinha particular em que eu estudava (tia Cici) entrou em reforma e passamos a ter aulas num instituto agrícola afastado da cidade. Foi uma experiência muito excitante para um menino acostumado ao setor urbano da cidadezinha do interior. Havia a proximidade com o meio rural, visita a hortas, criadouros de animais, muito espaço para brincar, correr, sujar-se de grama e aumentar a vigilância atenta das professoras. Talvez a principal atração fosse a ida de ônibus para o instituto, toda a turma junto, ao invés da chegada aos poucos das crianças que costumavam vir à escola caminhando levadas pela mão pelos pais ou empregadas. Ali víamos as novidades mais distantes da cidade, acompanhamos a montagem de um circo recém chegado, cantávamos e falamos do Zico e de futebol, depois de disputar os melhores lugares à abertura da porta do ônibus.
De todas as experiências desse período, houve uma para mim mais marcante. Um encontro com os alunos de uma escola rural que funcionava próximo ao instituto. A questão da desigualdade sempre me tocou e me lembro de observar tais diferenças na integridade dos sapatos e na composição dos uniformes, na candidez e nos gestos contidos daquelas crianças, quase todas caladas e com o olhar mais assustado que o nosso. Lembro-me especialmente de uma menina, L., cujo nome nunca esqueci e que me chamou a atenção pelo cabelo crespo e louro e pelos olhos, muito tristes e puxados, como de uma japonesinha. Sua imagem me despertou uma estranha vergonha e compaixão acompanhados por previsões pouco otimistas acerca de seu futuro: qual seria? Parece que ali fui atingido pela aguda consciência das diferenças de oportunidades que o amanhã nos reservaria. Como de costume, guardei para mim aqueles pensamentos e angústias, a vida seguiu na conivência que me era destinada.
Na adolescência, tal foi minha surpresa ao reencontrar pela cidade algumas vezes aquela menina, já moça, possivelmente a família se mudara para a cidade. Sem nunca ter lhe falado, pude testemunhar como se tornara bonita, algo acontecera que ela já não me parecia tão destituída, transmitia uma altivez que confortou toda a apreensão que me atingiu em nosso primeiro encontro. A vi tornar-se mulher e aparecer com um namorado. Como me alegra saber que ela pode até ter se tornado até mais feliz que eu.

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