Mil, um milhão
Um livro de um só personagem, que dialoga com outros, que
conhecemos através dele.
(algo como o Pequeno Príncipe na velhice)
Eu andaria ainda muito mais, não tenho pressa de chegar, mas,
por favor, me diga: aonde isso vai me levar? Sim, um pouco de cansaço. Não
estou acostumado a andar assim. Somente poderia mais, se me dissesse. É mais
difícil ir quando não se sabe aonde vai chegar.
Se eu cruzasse com alguém que me perguntasse por que ando
por aqui, não saberia. Por isso, insisto. Já levei muitos comigo e sentir-me
responsável pela vida de outros é algo que não suporto mais. Deixei-os seguir
por onde fossem, levados por não sei mais o que. Gostaria que fosse mais fácil
para eles, como para mim. É por isso que agora me vêem sozinho, e já não me
reconhecem como aquele que fui e querem saber para onde vou. Não saber é o meu
caminho, do qual não posso desviar-me.
Se eu falasse em outra língua, você também me entenderia.
Porque o que eu falo é assim, sem idioma. Isso que você escuta, não saiu de
mim.
Eu daria quantas chances fossem pedidas, anistiaria a todos
os que demonstrassem um arrependimento genuíno, sem que com isso arrasassem
suas vidas. Sempre quis ser tratado com indulgência.
Sou um desconfiado, sobretudo, desconfiado de mim mesmo.
Essa mania de viver como se eu tivesse sempre outra chance,
como se eu fosse novamente passar pelos mesmos lugares, isso me faz negligente
com a vida.
Sim, estou pronto para a morte, posso entregar-me quando
chegar minha hora. Despediria.
Uma ocasião somente na vida, senti-me só. Eu era tão
auto-suficiente, que me doeu ainda mais do que dói em você. Você sempre esteve
acostumado a precisar de alguém. Eu não. Então, sentir que não me bastava
Eu precisava daquela falha para restabelecer a ordem do
mundo. Para que tudo estivesse em sua mais perfeita desordem, que a maneira de
o mundo funcionar.
Tudo o que eu faço é sempre inconcluso. Tenho um caderno
cheio de frases inacabadas, de histórias que nunca terminarei. Porque não sei
dar aos personagens um destino, como não sei dá-lo a mim.
E se preciso dessa profunda dor para escrever é porque algo
está errado. Serei depende do sofrer para realizar o meu grande projeto de
vida? Serei um escravo da dor. Toda minha realização pessoal passará pelo
sofrimento mais profundo, pela escuridão da alma.
Algumas frutas apodrecem com mais dignidade, com um odor
adocicado e agradável: morango, pera, maçã, banana. Os homens apodrecem por
dentro e exalam mau cheiro que toma e impregna o ar.
Tudo o que sai de mim não é nada do que eu queria mostrar. Dentro
de mim sou puro, acredito, não sou tão “aburrido” como as coisas que escrevo,
nem tão descontrolado como as paixões que exerço.
Eu queria ter tido outras chances.
Certa ocasião, escolhi que deveria experimentar a dureza,
para conhecer melhor a vida, para não ser tão inocente e protegido; então me
expus. Não sei o que recolhi disso, sei que me custa livrar-me, que a ternura
tornou-se algo difícil inacessível, como se eu tivesse me perdido e não
soubesse mais como voltar.
Mil, um milhão, eu poderia tudo, eu teria o mundo aos meus
pés, eu era forte, determinado, não havia o que eu não alcançasse, eu não me
cansava, era capaz de ultrapassar as noites, vencer os limites do corpo, nada
me deteria.
Quero deveras, um coração.
Então escolha a parte de mim que você quer tragar, me absorva na sua ânsia de querer demais, me derrame pelas vias de seu desloucamento. Desloque-me. Sempre quis alguém que me tirasse do lugar, mas não de forma violenta, abrupta, mas me deixasse ter a vontade de sair dessa inércia que é a vida, a minha vida, a vida de alguém que aprendeu a nada fazer. Pois tive um pai cujo maior erro não está nas coisas que fez, mas nas que deixou de fazer.
Quero deveras, um coração.
Então escolha a parte de mim que você quer tragar, me absorva na sua ânsia de querer demais, me derrame pelas vias de seu desloucamento. Desloque-me. Sempre quis alguém que me tirasse do lugar, mas não de forma violenta, abrupta, mas me deixasse ter a vontade de sair dessa inércia que é a vida, a minha vida, a vida de alguém que aprendeu a nada fazer. Pois tive um pai cujo maior erro não está nas coisas que fez, mas nas que deixou de fazer.
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