A morte do cão

Os cães atropelados. Um deles com o corpo retorcido sobre o ventre esmagado em curva. Enquanto caminhava, não imaginava que um dia teria um cão. Aqueles corpos eram o horror, a imagem que até hoje permanece.
A criança. Imagens que atropelam, palavras que se retorcem.
Os homens enterram seus mortos, num apelo quase instintivo. Assim já faziam nossos primitivos antepassados. A morada fúnebre diz sobre a vida do morto, às vezes mais do que ele soube sobre si. Famílias querem os corpos. Se desaparecem, a morte segue sem lugar. Um vagar sem dignidade, um não foi.
Aqueles cães. Não os chorei. Ficaram ali, vísceras confundidas com terra e asfalto, sem alma. Mas há que se enterrar os cães. Há que dar-lhes tanta dignidade?

Meu cão viveu dois anos. Cativava-me ao ponto de senti-lo humano. Tive mais remorso por ele do que pelo amigo que ele mordeu. Não tinha raça, tinha um nome.Numa noite de inverno, já doente há três dias, vi compaixão nos seus olhos. Amanheceu morto. O corpo endurecido estava perto da porta, atrapalhando a abertura.
Não o vi mais. Foi um luto de vários dias, até que trouxeram-me outro cão.

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